Alexandre Kalache quer tirar a velhice do “aposento”
"Nossa sociedade é machista, sexista, homofóbica, capacitista e cada vez mais idadista", diz ele
O Brasil já tem 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, pelos dados de 2024 do IBGE. São 12,1 milhões a mais do que em 2012. Para o médico gerontólogo carioca Alexandre Kalache, 80, a pergunta urgente não é apenas como viver mais, mas como continuar participando da vida.
“Saia do aposento. Participe. Insista no seu direito de participar, de ter acesso à saúde e de manter sua autonomia”, diz ele, com mais de 70 mil seguidores nas redes, e que vai estar na Fisweek, festival de inovação, empreendedorismo e tendências da saúde, de 11 a 13 de novembro, na Marina da Glória, em debate sobre políticas públicas para a longevidade. “Não dá para achar que cuidar é responsabilidade só do governo ou das mulheres. Todo mundo precisa entrar nessa equação.”
Ex-diretor do programa de envelhecimento da Organização Mundial da Saúde, Kalache observa que cada vez mais jovens se interessam pelo assunto. “Noto dois grupos importantes entre os meus seguidores: pessoas com menos de 40 e, sobretudo, mulheres. Isso é interessante porque, por uma questão de gênero, os homens são justamente os que mais precisam aprender a se cuidar. As mulheres costumam ter uma relação mais próxima com o próprio corpo e o homem cresce ouvindo que menino não chora e, 60 anos depois, pode deixar de dizer que está com dor no peito. Quer chegar bem aos 100? Comece já”.
O que quase ninguém lhe pergunta sobre a própria velhice, mas deveria? “Sobre propósito. Não adianta ter boa saúde, conhecimento, facilidade com a tecnologia, sentir-se protegido, ter um teto digno, comida na prateleira e talvez um plano de saúde se você chega aos 65 ou 70 anos sem saber o que fazer da vida. Outra questão é o idadismo. Fique de olho, cara. Nossa sociedade é machista, sexista, homofóbica, capacitista e cada vez mais idadista. Conforme cresce o número de pessoas idosas, tentam colocá-las num canto, num aposento. Até a palavra ‘aposentadoria’ lembra aqueles quartos nos fundos das casas antigas, onde se colocavam os velhos. Insista no seu direito de participar, de ter acesso à saúde e de manter sua autonomia. É isso que traz qualidade de vida: não apenas acrescentar anos à vida, mas vida aos anos”.






