“Consigo ver a minha morte”, disse Heloisa Teixeira, em abertura de doc
A escritora e acadêmica, morta nesta sexta (28/03), pode ser vista em dois filmes

Além das páginas dos livros, pode-se assistir à Heloisa Teixeira em dois filmes: um deles, “Helô”, do filho mais velho, Lula Buarque de Hollanda, lançado pelo Canal Brasil no ano passado (e disponível na Globoplay). Foi gravado nos últimos sete anos, traçando um perfil da professora, crítica literária, editora, agitadora cultural e muito mais.
“Ninguém pode prever a própria morte, mas eu consigo ver a minha. Tenho enfisema pulmonar; se eu me interno, vou entubada e não saio mais”. Já essa cena é a de abertura do documentário “O Nascimento de H. Teixeira”, de Roberta Canuto, lançado ano passado. A estreia foi na TV aberta, no Canal Curta, em 20 de março, o mesmo dia em que Heloisa foi internada na São Vicente, na Gávea.
“É muito louco isso. A fala está no começo, mas não é um filme sobre morte, e sim que fala de vida, para desconstruir e mostrar a vida pulsante dessa mulher”, diz Canuto à coluna. Pelo mês da mulher, o filme estará disponível on-line no Festival Mulheres+, até 3 de abril, na plataforma www.inff.online.
Para produzir o doc, Roberta conviveu com a acadêmica por sete anos. “Tive uma relação muito afetuosa, de profundo encantamento — essa é a palavra. Quando a Clélia (Bessa, produtora) me convidou, eu conhecia a Heloísa intelectual, palavra com que ela não gostava de ser identificada. E aí eu conheci uma mulher extraordinária. Eu já via sinais disso na minha pesquisa: uma mulher à frente do seu tempo, antenada com o mundo, uma mulher profundamente afetuosa, generosa, que abraça o mundo com uma verdade, uma sinceridade e coragem absolutamente admiráveis. E era muito corajosa no sentido de ser humano, de se permitir ser contraditória, às vezes, em relação aos questionamentos, justamente porque era uma pessoa aberta para o mundo, que não gostava de fechar sentenças, fechar pensamentos. Ela estava sempre aberta a aprender, a se deixar levar pelo mundo, sobretudo pelo mundo minorizado pelas mulheres, pelas pessoas negras, pelo movimento negro, pela periferia. Uma mulher absolutamente única”.
O filme trata da transformação de Heloísa Buarque de Hollanda para Heloísa Teixeira. Contudo, inicialmente, o projeto seria inspirado pelo livro “Marginais anos 70”, que reflete a cultura alternativa dos anos 1970, mas tomou novo rumo depois de Canuto saber que ela queria mudar o nome, simbolizando a nova fase e sua reafirmação pessoal.
“O elogio que eu mais gosto de ouvir sobre o filme é que a pessoa está fascinada pela Heloísa: só tem ela falando. Não queria ouvir pessoas sobre ela, mas sua visão sobre a vida, o mundo, sobre tudo. O que mais me encantou foi a franqueza, a sinceridade diante da vida, a abertura em acolher, em abraçar, em ser generosa… E o bom humor. Ela era engraçada, espirituosa, inteligente demais, uma inteligência brilhante”, conta Roberta.
Uma das cenas é também quando ela recebe a confirmação como nova imortal na ABL, em 2023, e diz: “Não sou suscetível a glórias. Meu objetivo lá dentro é trabalhar e ver como eu posso contribuir”.
“Isso eu gosto muito e do final também, quando ela ri de si mesma, quando ela se desconstrói. Isso é típico de uma pessoa muito especial”, finaliza Canuto.