Ressaca pós-Copa e período de abstinência
A programação normal voltou, o reality show de virilidade chegou ao fim e fica um certo vazio
Acaba a Copa, e sai do ar aquele mar de virilidade que invade a televisão por mais de um mês. De uma hora pra outra, desaparecem os jogadores, os comentaristas, os técnicos, os repórteres nos estádios, os ex-atletas nos estúdios, as entrevistas no gramado, os treinos, as coletivas, os closes de quem correu 90 minutos sem perder o fôlego. Durante esse período, é praticamente testosterona saindo pelas orelhas.
A famosa “ressaca pós-Copa” é aquele momento em que a humanidade acorda de uma explosão de dopamina, olha em volta e percebe que a programação normal voltou, o reality show de virilidade chegou ao fim e fica um certo vazio. A avalanche de camisas, músculos, barbas por fazer, rivalidades, comemorações e emoções some da tela. Para quem entrou no clima, começa o período de abstinência. Sim, pode causar dependência. Ainda mais quando se descobre que futebol, durante a Copa, nunca foi só futebol, mas um experimento neuroendócrino em escala planetária.
Estudos da Harvard Medical School e de universidades pelo mundo mostram que torcer em grupo ativa os mesmos circuitos neurais de recompensa que substâncias viciantes. Você se sente parte de algo gigante. O mundo fica em estado de alerta, até pelo coquetel hormonal e, como qualquer substância potente, a testosterona e os hormônios do bem-estar (dopamina e ocitocina) têm um lado de pura euforia e outro de puro caos.
O lado eufórico conhecemos pela felicidade dos brasileiros quando a Espanha derrotou a Argentina, um rival histórico. Já o caos pel revolta dos argentinos quebrando tudo, de Copacabana a Búzios, de Buenos Aires a Times Square, em NY. Se em doses controladas a testosterona traz energia e paixão, em excesso — e misturada com álcool, frustração ou euforia desmedida — transformou os hermanitos em agressores contra eles mesmos.







