Crônica, por Eduardo Affonso: 12 de junho
Como essa gente lacradora de hoje acha que Tony Curtis, um dos maiores galãs do seu tempo, conquistou Marilyn Monroe?
Fala-se tanto em falta de inclusão, diversidade, representatividade, mas só pode ser gente que ainda não era nascida na década de 60 e tem a impressão que o planeta, antes de sua chegada a ele, era reacionário, quadrado e careta.
O Gordo e o Magro viviam juntos. Dormiam na mesma cama, inclusive. E era a coisa mais normal do mundo. Isso nos anos 1940.
Acha pouco?
Moe, Joe e Larry não eram tão patetas quanto se imagina: também coabitavam e dividiam o leito, num esquema de poliafetividade que não escandalizava ninguém.
Como essa gente lacradora de hoje acha que Tony Curtis, um dos maiores galãs do seu tempo, conquistou Marilyn Monroe, a mulher mais cobiçada do cinema? Não foi exibindo os bíceps ou agarrando-a pelo cabelo, como fazem os machos opressores de hoje no Carnaval, mas usando vestido, peruca e maquiagem pesada. Jack Lemmon, heterossexual convicto, acaba encontrando o homem da sua vida, Joe Brown, também vestido de drag quando as drags nem sonhavam em ser queens. Se não viu, veja: “Quanto mais quente, melhor” (1959) – talvez a melhor comédia de todos os tempos.
O que dizer dos inseparáveis Zorro & Tonto e Mandrake & Lothar, que, ainda por cima, eram relacionamentos interraciais?
E Maga Patalójika e Madame Min?
Matracatrica e Fofoquinha?
Tom & Doug, que tinham não só um passado, mas também um futuro, e viviam juntos para lá e para cá, inseparáveis, no Túnel do Tempo?
Fred e Barney, com seus casamentos de fachada?
Recruta Zero e seu fetiche bondage com o Sargento Tainha?
Emília, no Sítio do Pica Pau Amarelo, fazia de gato e sapato o Visconde de Sabugosa. E ainda se casou com um porco, o Marquês de Rabicó – num tipo de relacionamento que nem o ex-ministro Barroso aprovaria.
Um dos maiores mitos da nossa era foi o Dr. Smith, a quem é impossível descrever de modo politicamente correto. Ele fez mais pelo movimento LGBTQIAP+ da época (que ainda não existia) do que qualquer parada gay. Era uma péssima influência para o pequeno Will Robinson, e nem por isso o garoto desgrudava dele (com a anuência dos pais, John e Maureen Robinson, que ou eram muito ingênuos ou simpatizavam com a causa).
Dr. Smith ainda por cima mantinha um relacionamento abusivo com uma criatura cibernética e não binária, o Robô. A quem, durante as frequentes D.R.s, chamava, toxicamente, de “lata de sardinha enferrujada”. E não há evidências de que o pequeno Will ou a ingênua Penny Robinson tenham virado genderfluid ou se tornado de Humanas por causa disso.
Jeannie morava com o Major Nélson sem serem formalmente casados – isso num tempo em que mulher amigada era vista como uma sirigaita, não como descolada.
A empoderada Agente 99 era muito mais esperta que o abilolado Agente 86. A tripulação do Star Trek era mais multiétnica que os anúncios da Benetton e da Natura e que as séries da Netflix, juntos.
Do Zé Colmeia & Catatau e do Batman e Robin eu nem vou falar, porque ainda não consegui encontrar um jeito de aportuguesar “sugar daddy”.
Aos que acham minha geração careta e retrógrada, saibam que éramos bem mais progressistas do que vocês imaginam.





