Crônica, por Eduardo Affonso: 22 de maio
Minha mãe, na primeira gravidez, esperava uma menina, que havia de se chamar Rita de Cássia e nascer em 22 de maio, dia da santa de sua devoção
Minha mãe, na primeira gravidez, esperava uma menina, que havia de se chamar Rita de Cássia e nascer em 22 de maio, dia da santa de sua devoção. Pensamento mágico, mas… quem nunca?
Deu tudo errado. Nasci Eduardo, com um cromossomo trocado, exatamente um mês antes. Não dando o braço a torcer, minha mãe marcou o batizado para o dia de Santa Rita, na Matriz da própria, a padroeira de Viçosa. E fui criado tratando Santa Rita como “madrinha”.
Em casa, tínhamos uma imagem dela, em lugar de honra. Era a seus pés que rezávamos o terço – o infindável terço de todas as noites, nos tempos mais difíceis. Era diante dela que minha mãe acendia velas quando pedia milagres, favores, conselhos, eis que Rita de Cassia é a santa dos impossíveis e das causas desesperadas. Queimou-se muito pavio, derreteu-se muita cera sob suas beatíficas narinas, para que eu me curasse da asma, na infância. E, mais tarde, para que largasse o curso de Psicologia e arrumasse um emprego no Banco do Brasil (minha mãe achava que estudar Psicologia ia me deixar louco – mal sabia ela que trabalhar no Banco do Brasil é que iria fazer isso comigo).
Deu certo. Santa Rita 2 x 0 Brônquios & Freud.
Um dia, chego em casa e não vejo a santa. Minha mãe desvia do assunto e não responde à minha pergunta sobre o que houve com a imagem, tão parte da família quanto qualquer um de nós.
Eu já tinha me assumido ateu (gays saem do armário; ateus, do confessionário), mas mantinha com aquela freira de olhar bondoso e terço amarrado na cintura uma relação afetiva. Era minha “comfort santa”, que deixara, há muito, de ter a ver com fé, e era puro amparo.
Minha mãe tinha se convertido: agora era evangélica. A madrinha Santa Rita de Cássia, que cuidara para que eu não afogasse a seco nem visse Édipo em cada anseio de colo, se convertera automaticamente em boneco de gesso. Fora quebrada e enterrada no quintal, junto com os sagrados corações, o terço gigante de bolotas de madeira e heresias afins.
Em vão. Todo 22 de maio eu me lembro de quando, ao entrar na Matriz, tinha de passar primeiro pela madrinha (em tamanho natural, do lado direito de quem chega pela porta principal) e tomar a bênção.
Quebrei e enterrei a religião. Santa Rita ficou, intacta. Não rezo para ela, sei que nenhum dos seus milagres aconteceu – não levitou, não fez brotar um galho seco, não deu descendência a mulheres estéreis, não fez expelir alfinetes engolidos, não apaziguou terremotos. Mas me deu na infância a sensação de estar protegido – e é para isso que servem as religiões, as fantasias, os rituais dos compulsivos.
Se não tivesse desaparecido no surto iconoclasta da minha mãe, a imagem teria ganho no seu dia um “parabéns pra você”. Madrinhas imaginárias também merecem.






