Crônica, por Eduardo Affonso: Abril
Há 67 anos deixei o ventre. Há 52, a casa materna. Há 49, a terra em que nasci.
Abril pede esta trilha sonora: Rosa Passos e Fernando de Oliveira na vitrola, suco de maracujá, uma caixa de chicletes, lençol branco no sofá. “Recriação” me leva de volta aos 20 anos. Há cinco deixei a casa dos meus pais, e “Noturno” fala é de mim: “Dezembro está nas portas, logo as férias vão chegar, e o mano está voltando com mil coisas pra contar”.
O mano sou eu. Sou eu o sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. O que, passado o vestibular – tenho agora 17 –, pode dizer que ano passado eu morri, mas este ano eu não morro. É minha a “Alucinação” de Belchior, são minhas as “Minas” e as “Geraes” que deixo para trás – e que minha mãe ouve, quando tem saudades de mim.
Ainda estou lá, tateando os contos de aprendiz que ficaram na estante. As mil e uma noites em claro, com os sonhos e as insônias que me seguirão vida afora. Os pés de manga que um dia foram o meu pé de laranja-lima. Os sonetos de Florbela Espanca, os versos de Manuel Bandeira e de Fernando Pessoa que me revelaram a mim mesmo.
É lá que estou, à deriva naquela jangada de pedra entre infância e velhice, que ora ancora no Pathé (Jules e Jim me esperam na penumbra), ora no Jacques (termina “Hair” e continuo preso à cadeira, incapaz de voltar ao mundo cá fora). Isso acontecerá, de novo, quando estiver dançando no escuro com Björk e Lars von Trier, no eterno flerte com a escuridão.
Refaço as contas. Há 67 anos deixei o ventre. Há 52, a casa materna. Há 49, a terra em que nasci. Há 33, o único amor. (Único? Não: Duda está aqui, fiel como só um cão sabe ser, porque não sabe o que é ser fiel: apenas é o que nasceu para ser.)
É isso o que levo: o que deixei. O gosto da macarronada de domingo (o que foi feito dos domingos em que nos reuníamos todos para nos respingar de molho de tomate e disputar a raspa da travessa de sagu?), o calor das castanhas (o que foi feito dos natais?), a maciez do glacê (o que foi feito dos bolos de aniversário?). O resto ficará perdido para sempre: o cheiro das manhãs de inverno (havia inverno), a textura do casaco de veludo (para o exercício do carinho), a visão de minha mãe entre margaridas (no jardim, não em seu velório), as veias túrgidas de minha avó, a mão serena de meu avô, o decalque na primeira página do caderno de caligrafia.
Levo para onde? Não sei. Levo porque vai comigo, porque não desgruda de mim.
“Mas chega de fantasmas e lembranças.” Abril é que me aviva as raízes, e em mim mistura Minas, memória e desejo. Tantas outras coisas iam comigo e se soltaram no caminho, essas também hão de se desprender antes que eu me desprenda de vez.







