Crônica, por Eduardo Affonso: Andarilhos
Passo por eles a cada viagem, e são muitos, vindos não se sabe de onde, e apenas indo, seguindo à margem da rodovia
Eles estão em todas as estradas, seguindo pelo acostamento, com seus cabelos desgrenhados, sua barba por fazer, suas mochilas gastas, sapatos rotos, pés descalços. Passo por eles a cada viagem, e são muitos, vindos não se sabe de onde, e apenas indo, seguindo à margem da rodovia, à margem dos carros – e, se não fosse muito piegas, à margem da vida.
Não diferem muito de nós, que seguimos sobre o asfalto, sobre rodas, em alta velocidade. Apenas estão um passo adiante: já sabem que não se vai a parte alguma, apenas se vai. Sabem que não se chega nunca – ou que se chega sempre – a cada segundo a um novo lugar, apenas para deixá-lo para trás. Sabem (e isso não sabemos) que não se sai de um lugar para chegar a outro, mas tão somente para não estar mais onde estávamos.
Vejo-os – quase sempre homens, sempre imundos, invariavelmente serenos – e imagino o que pensam em seu passo lento enquanto passo acelerado. Para eles, não existo: sou máquina, uma das máquinas que zunem pela estrada na ilusão de haver um ponto de chegada. Mas (sabem eles, eu não sei) apenas faço uma inflexão, pego outro rumo, volto sobre meus próprios rastros. Eles não: eles seguem, sem pressa, arrastando suas tralhas, seus inutensílios, remoendo suas histórias.
Passo rápido por eles, mas percebo que murmuram – ou talvez apenas mastiguem, ruminem, pensem alto. Houve um que gritava salmos, sacudindo algo que parecia ser uma bíblia. Ouvi dele alguma sílaba, o carro que veio atrás de mim ouviu mais outra, e assim sua pregação se espalhou pelo tráfego, pelo vazio entre os carros, cada carro recolhendo um fragmento sem sentido do seu discurso – e não é isso, exatamente isso, o que fazemos? o tempo todo, fora da estrada, e sem fé ou fanatismo algum a nos sustentar, a nos tentar (em vão) levantar do chão?
Em que momento deixaram tudo para trás? Em que ponto de parada decidiram não parar? Quando terá sido o último banho, o último eu te amo, o último a que horas você volta? Que peso deixaram cair dos ombros ao pendurar neles a mochila em que levam tudo que não têm, e que carregam só porque do contrário flutuariam, desapegados do chão como já se desapegaram de todo o resto?
Não há estrada em que não estejam, em romaria silenciosa, autônoma, espontânea. Talvez se cumprimentem ao se cruzar, ao se alcançar e ultrapassar se vão na mesma direção. Devem se reconhecer – pelo cheiro, pelo que murmuram, pelo estado andrajoso em que se encontrem. Quem sabe trocarão sinais, como os maçons e as formigas, quem sabe sequer se veem uns aos outros – nós é que os vemos, ou aos seus vultos negros, olhos brancos cercados de fuligem, rostos sem nome, nomes sem documentos.
Serão os últimos homens livres deste mundo – ou, quem sabe? os primeiros. Não duvido que em algum momento, algum lugar, venham a se encontrar todos esses que caminham sem direção, e que façam todos parte da mesma fraternidade. E aí, sem se falar, porque já se esqueceram como é que se fala, compartilharão tudo o que viram – o meu carro passando a cem, o meu olhar buscando o seu, o meu ouvido ouvindo sua sílaba perdida – tudo que sentiram – o vento, o vento, o tempo, a chuva, o vento, o vento – tudo que sonharam ao relento, sob viadutos, árvores, estrelas, tempestades.
Por duas vezes, parei e perguntei aonde iam. Me devolveram a pergunta: para onde eu fosse é para lá que iriam. Contrariando tudo que meu pai me ensinou, ofereci carona. Queria ouvir suas histórias, saber se eram loucos ou se loucos somos nós, os que correm contra o tempo, contra os radares, contra a vontade de parar e apenas caminhar sem rumo.
Um era jovem, falava bem, cheirava muito mal, e procurava trabalho. Diria que era um hippie, um outsider, um que resolveu não ter pouso certo, carteira assinada, e ia vivendo do que aparecesse para viver. Deixei-o em Juiz de Fora, se despediu com um aperto de mão que me deixou com a mão imunda, e não imagino onde possa estar agora, em que país, em que planeta. O outro era um senhor, idoso, curvado, que cheirava menos mal, falava pouco. Vinha do Ceará (o encontrei no sul de Minas) e não procurava trabalho, nada. Pedia esmola e ia indo. Havia assassinado o próprio irmão com uma foice, por motivo fútil, vivia foragido há décadas, e contou isso sem culpa, sem drama. Deixei-o em Andrelândia, perto da Igreja do Rosário. Sem aperto de mão, sem aperto no coração, sem nada.
Ainda não sei qual de nós é o fugitivo, qual de nós o sem destino.





