Imagem Blog

Lu Lacerda

Por Lu Lacerda Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Jornalista apaixonada pelo Rio

Crônica, por Eduardo Affonso: Bruce

Morcegos são gente boa: controlam pragas, disseminam sementes, polinizam flores e suas fezes são adubos naturais

Por Daniela 8 mar 2026, 07h00
fasdsfd
 (IA/Reprodução)
Continua após publicidade

Quem acessar minhas pesquisas no Google imaginará, não sem razão, que algo de muito estranho acontece com minha mente, ou no meu entorno. A última consulta foi: “Quanto tempo vive um morcego?”.

Veio a resposta que eu temia: o bicho vive muito. “Entre 10 e 20 anos na natureza, mas muitas espécies podem superar os 30 anos”, me informou o padrasto dos burros (o pai, todo mundo sabe, era o dicionário, que deuzutenha).

Morcegos são gente boa: controlam pragas, disseminam sementes, polinizam flores e suas fezes são adubos naturais. Sei tudo isso, claro, porque antes tinha consultado o Google a respeito. Mas a maior praga aqui por perto é o sujeito que liga a caixa de som em volume máximo na quadra, para treinar basquete (sozinho!) todas as noites. Na varanda, quero manjericão, alecrim, tomate – não árvores frutíferas da Mata Atlântica. Não há flores aqui a polinizar e tenho ainda meio balde de 4-14-8, de modo que prefiro que minhas floreiras sejam poupadas de necessidades fisiológicas alheias. Dispenso, portanto, todos os serviços dos morcegos.

E não, não tenho, absolutamente, medo deles – exceto dos que estejam num raio de um quilômetro.

Há algum tempo, tomava eu o meu banho noturno, distraído, quando o que me pareceu serem umas sementinhas começaram a cair no meu ombro. Olhei para cima, para ver o que tinha dado no chuveiro (do qual, normalmente, só cai água) e me deparei com ele. Plácido. Absolutamente senhor de si. Asas recolhidas, olhinhos atentos. Dependurado. De cabeça para baixo. Fazendo o seu número 2. Em cima de mim.

Continua após a publicidade

Não sei se você acredita em teletransporte, mas me materializei na sala. Nu, ensaboado, com batimentos cardíacos acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

O que Maciste, capitão Kirk, Tarzã, Mandrake ou Santo, o Lutador Mascarado, fariam numa situação dessas? Ignoro, porque esses modelos arquetípicos de masculinidade tóxica ficaram longe, na infância. Liguei para a portaria e pedi que mandassem alguém vir aqui retirar o monstr…, quer dizer, a inofensiva criatura instalada no meu box.

– É porque não quero machucar o bichinho – expliquei ao segurança, quando ele chegou. Eu já estava, claro, enrolado numa toalha – mas o chuveiro continuava aberto e um rastro escorregadio de sabão denunciava que o teletransporte fora mais psicológico que real.

Continua após a publicidade

O segurança pediu uma sacola de supermercado, foi lá, fechou o chuveiro, ensacolou o bicho e o libertou, na varanda. É, nem todo herói usa capa.

Desde então – e isso faz uns dez anos – Bruce virou freguês (Bruce, que fique bem claro, é o morcego, não o segurança). Nunca mais me pegou no banho (mesmo morando sozinho, agora fecho a porta), mas dá rasantes pela sala, belisca o que houver na fruteira e, principalmente, aduba o apartamento. Toda manhã, lá vou eu limpar, com álcool, o serviço que ele faz – no quarto, na cozinha, onde lhe der na veneta.

Pesquisei agora há pouco: “Como espantar morcegos?”. Tinha pensado em pendurar cortinas de contas nas janelas, ou talvez espalhar réstias de alho, mas as primeiras deixariam isto aqui com um suspeito ar de cabaré, e as segundas só devem funcionar em filmes de terror. O Google sugere colocar bolotas de naftalina (onde? Pela casa inteira?), borrifar citronela, instalar refletores de LED ou sinos de vento (aqueles que fazem barulho 24 horas por dia – e, neste caso, eu prefiro conviver com o morcego).

Continua após a publicidade

Minha dúvida era se o visitante desta noite – e de todas as outras – podia ser o mesmo daquele banho, ou alguém da família, que tenha ouvido histórias (um tanto exageradas) sobre o meu teletransporte e resolveu vir conferir. Pelo jeito, pode ser o Bruce, já que a espécie é longeva.

Quando ele aparecer de novo, vou evocar outros heróis – Batman ou Bat Masterson, não resolvi ainda – e ter uma conversa com ele, de homem para quiróptero, sobre a diferença entre meu apartamento e um banheiro químico.

Se não funcionar, vi que há deterrentes (sim, a palavra existe) com emissores de ultrassom ou luzes intermitentes, que afastam toucandões (seja lá o que isso for), lobos, coiotes, raposas, esquilos e guaxinins. Devem servir para o Bruce.

Continua após a publicidade

Aí não preciso mais fazer faxina diária, posso deixar bananas e abacates na fruteira e – melhor de tudo – voltar a tomar banho de porta aberta.

Eduardo
(arquivo pessoal/Arquivo pessoal)

 

Publicidade

Essa é uma matéria fechada para assinantes.
Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Impressa + Digital no App
Impressa + Digital
Impressa + Digital no App

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 39,99/mês