Crônica, por Eduardo Affonso: Bruce
Morcegos são gente boa: controlam pragas, disseminam sementes, polinizam flores e suas fezes são adubos naturais
Quem acessar minhas pesquisas no Google imaginará, não sem razão, que algo de muito estranho acontece com minha mente, ou no meu entorno. A última consulta foi: “Quanto tempo vive um morcego?”.
Veio a resposta que eu temia: o bicho vive muito. “Entre 10 e 20 anos na natureza, mas muitas espécies podem superar os 30 anos”, me informou o padrasto dos burros (o pai, todo mundo sabe, era o dicionário, que deuzutenha).
Morcegos são gente boa: controlam pragas, disseminam sementes, polinizam flores e suas fezes são adubos naturais. Sei tudo isso, claro, porque antes tinha consultado o Google a respeito. Mas a maior praga aqui por perto é o sujeito que liga a caixa de som em volume máximo na quadra, para treinar basquete (sozinho!) todas as noites. Na varanda, quero manjericão, alecrim, tomate – não árvores frutíferas da Mata Atlântica. Não há flores aqui a polinizar e tenho ainda meio balde de 4-14-8, de modo que prefiro que minhas floreiras sejam poupadas de necessidades fisiológicas alheias. Dispenso, portanto, todos os serviços dos morcegos.
E não, não tenho, absolutamente, medo deles – exceto dos que estejam num raio de um quilômetro.
Há algum tempo, tomava eu o meu banho noturno, distraído, quando o que me pareceu serem umas sementinhas começaram a cair no meu ombro. Olhei para cima, para ver o que tinha dado no chuveiro (do qual, normalmente, só cai água) e me deparei com ele. Plácido. Absolutamente senhor de si. Asas recolhidas, olhinhos atentos. Dependurado. De cabeça para baixo. Fazendo o seu número 2. Em cima de mim.
Não sei se você acredita em teletransporte, mas me materializei na sala. Nu, ensaboado, com batimentos cardíacos acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
O que Maciste, capitão Kirk, Tarzã, Mandrake ou Santo, o Lutador Mascarado, fariam numa situação dessas? Ignoro, porque esses modelos arquetípicos de masculinidade tóxica ficaram longe, na infância. Liguei para a portaria e pedi que mandassem alguém vir aqui retirar o monstr…, quer dizer, a inofensiva criatura instalada no meu box.
– É porque não quero machucar o bichinho – expliquei ao segurança, quando ele chegou. Eu já estava, claro, enrolado numa toalha – mas o chuveiro continuava aberto e um rastro escorregadio de sabão denunciava que o teletransporte fora mais psicológico que real.
O segurança pediu uma sacola de supermercado, foi lá, fechou o chuveiro, ensacolou o bicho e o libertou, na varanda. É, nem todo herói usa capa.
Desde então – e isso faz uns dez anos – Bruce virou freguês (Bruce, que fique bem claro, é o morcego, não o segurança). Nunca mais me pegou no banho (mesmo morando sozinho, agora fecho a porta), mas dá rasantes pela sala, belisca o que houver na fruteira e, principalmente, aduba o apartamento. Toda manhã, lá vou eu limpar, com álcool, o serviço que ele faz – no quarto, na cozinha, onde lhe der na veneta.
Pesquisei agora há pouco: “Como espantar morcegos?”. Tinha pensado em pendurar cortinas de contas nas janelas, ou talvez espalhar réstias de alho, mas as primeiras deixariam isto aqui com um suspeito ar de cabaré, e as segundas só devem funcionar em filmes de terror. O Google sugere colocar bolotas de naftalina (onde? Pela casa inteira?), borrifar citronela, instalar refletores de LED ou sinos de vento (aqueles que fazem barulho 24 horas por dia – e, neste caso, eu prefiro conviver com o morcego).
Minha dúvida era se o visitante desta noite – e de todas as outras – podia ser o mesmo daquele banho, ou alguém da família, que tenha ouvido histórias (um tanto exageradas) sobre o meu teletransporte e resolveu vir conferir. Pelo jeito, pode ser o Bruce, já que a espécie é longeva.
Quando ele aparecer de novo, vou evocar outros heróis – Batman ou Bat Masterson, não resolvi ainda – e ter uma conversa com ele, de homem para quiróptero, sobre a diferença entre meu apartamento e um banheiro químico.
Se não funcionar, vi que há deterrentes (sim, a palavra existe) com emissores de ultrassom ou luzes intermitentes, que afastam toucandões (seja lá o que isso for), lobos, coiotes, raposas, esquilos e guaxinins. Devem servir para o Bruce.
Aí não preciso mais fazer faxina diária, posso deixar bananas e abacates na fruteira e – melhor de tudo – voltar a tomar banho de porta aberta.







