Crônica, por Eduardo Affonso: É complicado
Pessoas complicadas se vitimizam, se comprazem na autocomiseração, se autoflagelam e atribuem a outras mãos a posse do chicote
Relógios são complicados, e quanto mais complicações têm, mais sofisticados, mais caros – e mais cobiçados. Mas não somos um relógio – logo, a lógica não se aplica aos seres humanos. Porque há uma sutil diferença entre complicado e complexo. E, claro, entre complexo e complexado. Tem gente que confunde, e complica tudo.
Pessoas complexas são interessantes; pessoas complicadas, não. Se você se interessa por alguém mais inteligente que você e é correspondido (sim, esses milagres acontecem), então passa a admirar a complexidade da pessoa, sua profundidade de pensamento, as “muitas camadas” do seu raciocínio. Se você se interessa por essa mesma pessoa, e ela não te dá a mínima (o que acontece com muito mais frequência do que a gente gostaria), então você sai dizendo pra todo mundo que ela é uma pessoa muito complicada. Não: complicado é você.
Pessoas complexas lidam bem com sua complexidade. Tiram partido das suas contradições, se enriquecem com isso. Sabem que o mundo não é linear, unidimensional ou monocromático; que a discordância não desqualifica seu ponto de vista – pelo contrário, o ilumina. Pessoas complicadas surtam, passam a não dizer coisa com coisa, inventam desculpas esfarrapadas para mascarar a incoerência e, dependendo do caso, te excluem ou bloqueiam no feicebuque. Mas criam um perfil falso pra continuar acompanhando suas postagens. Complicado, não?
Pessoas complexas chupam cana enquanto assobiam, batem bolo resolvendo sudoku, e fazem tudo isso com um pé nas costas – porque não precisam abandonar a ioga pra fazer o que quer que façam. Pessoas complicadas, não. Essas não conseguem andar e mascar chicletes ao mesmo tempo.
Pessoas complexas têm autoestima em níveis saudáveis (nem baixa demais pra ler livro de autoajuda, nem alta demais para escrever um). Já as pessoas complicadas colocam a autoestima num carrinho de montanha russa e compram tíquetes válidos até a próxima extinção em massa. Gritam e agarram seu braço na subida, berram e vomitam no seu colo na descida – mas não aproveitam a vista nem a adrenalina.
Pessoas complexas jamais são complexadas. Se aceitam como são, convivem com o seu todo (“nada teu exagera ou exclui”, ensinava uma pessoa muito complexa chamada Fernando Pessoa) e sabem distinguir em si o que é essencial (e imutável) do que é acessório (e renovável).
Pessoas complicadas se vitimizam, se comprazem na autocomiseração, se autoflagelam e atribuem a outras mãos a posse do chicote que manejam contra si mesmas. São umas pobres coitadas, as pessoas complicadas – ninguém as ama, ninguém as entende, ninguém tem olhos para ver suas inexistentes virtudes. São sempre gordas demais, magras demais, tímidas demais, falam alto demais, amam demais, amam mal demais.
As pessoas complexadas consideram complicadas as pessoas complexas. Mais ou menos como quem acha que todo mundo é sujo, sem se dar conta de que devam consultar um oftalmo – ou que seus óculos é que precisem de uma limpeza.





