Se eu não fosse ateu, queria ser macumbeiro.
Sei que macumba é um instrumento de percussão, não uma religião. E eu gosto é disso: do som, não do sentido.
Gosto da coreografia, da trilha sonora.
Poderia dizer que seria de umbanda, quimbanda, candomblé. Mas não. Queria é ser de macumba mesmo.
Virar Pai Dudu da Gamboa, ter um terreiro, tomar marafo, fazer ebó, quizumba, canjerê.
“Casa de pai dudu” seria uma espécie de casa da mãe joana, só que mais liberal.
Mas não consigo (apesar de ser filho de Ogum), acreditar em nenhum orixá, em nenhum exu (na umbanda, os exus não são orixás).
Acredito em Nietzsche, que disse, através de Zaratustra, que não concebia um deus que não soubesse dançar – e nas religiões de matriz africana todos dançam. E como dançam!
Só que seria desrespeitoso, blasfemo, ser branco, mineiro, ateu e macumbeiro.
Depois de algumas experiências místicas na Índia e no Nepal (um dia conto essas histórias) fui a Vargem Grande (mais perto que Kathmandu), visitar um mosteiro.
Falei a um monge do meu desejo de ser budista, que esbarrava em três obstáculos intransponíveis.
Um era não acreditar em alma, vida após a morte, reencarnação, nada que ultrapassasse a matéria. O monge me disse que não era preciso que eu acreditasse em nada: quando eu morresse, veria por mim mesmo.
O segundo era não crer em nenhuma espécie de divindade ou força superior. O monge não se abalou: as divindades existiriam ou não independentemente de mim. Minha crença ou descrença não fariam diferença nenhuma.
O terceiro senão era o próprio corpo: não sou nada ascético. Não leio horóscopo, mas sou taurino, e taurino é apegado aos prazeres carnais. Mais uma vez, o monge tinha a resposta na ponta da língua: o dia em que eu descobrisse a saciedade, não dependeria tanto das recompensas físicas. Só procura água quem ainda tem sede – foi o que ele disse.
Desisti, temporariamente, do budismo porque Buda não dança. E os budistas ficam saciados, e é a sede que me move. Além disso, mais meditam do que bailam.
(Até consigo meditar, mas no máximo por um décimo, um décimo e meio de segundo. Meus pensamentos peregrinos são praticamente uma romaria a Aparecida no 12 de outubro, um Caminho de Santiago na alta temporada, uma Alvorada de São Jorge em Quintino.)
Depois andei frequentando templos e restaurantes Hare Krishna. Gostei da comida (lactovegana!) e do astral, da alegria das danças, do colorido das roupas, das deidades risonhas, cercadas de flores.
Ao contrário dos pontos de umbanda, que falam de matas e cachoeiras, nos cânticos para Krishna não dá para entender patavina (o que não é ruim de todo, porque ajuda a abstrair do racional). Só não sei se conseguiria decorar algo além do “hare ram hare hare”.
Poderia criar minha própria seita, virar um Guru Dudu Baba e passar o resto da vida dando abraços apertados (coisa que gosto de fazer), recebendo sorrisos dobrados e pregando um amor sem fim, sem deuses nas imediações.
Acho que eu não seria ateu se pudesse acreditar só na dança de Shiva, não em Shiva; ser um dervixe e receber um axé sem ter que professar o Islã ou fazer oferenda a um orixá. Juntaria címbalos e caxixis, gongos e agogôs, harmônios e atabaques. O Krishna que habita em mim saudaria o Exu que mora em você, tendo Zaratustra como hóspede nesse Airbnb psíquico.
“Quando vi meu demônio, achei-o sério, grave, profundo e solene: era o espírito da gravidade. Ele faz todas as coisas caírem. (…) Agora sou leve, agora voo; agora me vejo abaixo de mim, agora através de mim dança um deus”.
Assim falou Nietzsche, aquele que escreveu que Deus está morto, que nós o matamos.
Talvez eu não precisasse ser ateu (ou macumbeiro, budista, hare krishna), se conseguisse acreditar em mortos que saibam dançar.







