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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Crônica, por Eduardo Affonso: Naufrágios

Emergiu, agora há pouco, intacto, um nome: Carl Chessman. Quem teria sido Carl Chessman?

Por Daniela 5 jul 2026, 06h56
Homem branco de cabelo escuro, com expressão séria, usando camisa clara e uma placa de identificação de prisão com CALIFORNIA PRISON 66565 B C CHESSMAN 11 25 1953 no peito, em frente a grades
 (./Reprodução)
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Volta e meia, parte dos destroços de um naufrágio chamado Memória se desprende e vem à tona. Às vezes é uma palavra; outras, um cheiro (ou um gosto que se parece com cheiro, que a Memória é pródiga em sinestesias).

Emergiu, agora há pouco, intacto, um nome: Carl Chessman. Quem teria sido Carl Chessman? Onde ele, seja quem for, esteve nos últimos 40 anos? Dentro de que filme, que livro, que disco, permaneceu submerso esse tempo todo, e por que retorna agora, só o nome – sem rosto, sem história?

Não, não foi ele quem matou Bob Kennedy. Talvez tenha sido um astronauta – no fundo do Mar da Memória flutuam, em gravidade quase lunar, cardumes de astronautas (Shepard, Gagárin, Glenn, Valentina Tereshkova, Komarov, Armstrong), mas Chessman não flutua com eles. Tampouco parece ter sido parceiro de aventuras de Daniel Boone, Bat Masterson, Capitão Escarlate, Will Robinson, Dr. Zachary Smith.

Chessman abre uma série de escotilhas comidas de ferrugem (o Mar da Memória é salgado) e à superfície vêm dar o sheik de Agadir e a filha do califa de Bassora (uma Marieta Severo que eu não sabia ser Marieta Severo, e para mim era apenas Éden, que não podia ser – mas era – o temível Rato). E a Fera da Penha e a Noivinha da Pavuna, que eu nunca soube muito bem quem eram; e Zé Arigó e Joãozinho da Gomeia, que eu não sabia onde começava um e terminava o outro; e Amaral Netto, O Repórter, exibindo orgulhoso a cicatriz aberta na mata para a Transamazônica; e Aparecida Gomide pedindo aos prantos dinheiro para pagar o resgate do marido sequestrado pelos Tupamaros; e Otelo Zeloni, Renata Fronzi e Carlos Bronco Dinossauro, em sua gigante casa de bonecas da Família Trappo; e Ted Boy, Rasputin, Verdugo, Mongol e o Tigre Paraguaio num balé aéreo que Deborah Colker só iria inventar muito depois.

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Entre potes de Glostora e saias godês, cintos de calhambeque e camisas Volta ao Mundo, pronuncio de novo, em silêncio, os nomes de Albertinho Limonta e Mamãe Dolores, de Santo, o Lutador Mascarado, e Piazza, Clodoaldo, Dario, Jairzinho, Rivelino; e ouço o maestro Erlon Chaves e sua banda Veneno; e Don e Ravel, e Agostinho dos Santos (um dos mortos que nunca me pareceram ter morrido, a exemplo de Leila Diniz). E revejo / reouço Marília Medalha, Simonal, Vandré, Golden Boys, Maria Alcina, Tony Tornado.

Antes que Carl Chessman levante todos os mortos e tantos vivos esquecidos, e traga seu Nelo (o vigia do hotel Rubim, velhíssimo desde sempre), Cubuizé e sua amante Tirolesa, minha professora d. Zolavy (e d. Joanna d’Arc, e irmã Águeda, e irmã Edwiges com sua vara de marmelo) e meu avô contando as histórias do Titanic e do dirigível Hindenburg, volto ao século 21 e vou ao Google.

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Carl Chessman – na verdade, Caryl Chessman (a Memória nunca foi muito boa em ortografia) vivia na biblioteca do meu pai. Era o condenado à morte que fez a própria defesa e contou a sua história num livro (“2455 – Cela da Morte”) que devo ter lido tão logo aprendi a ler.

Meu pai era a favor da pena capital — eu, não. Aos sete, oito anos, me imaginava no corredor da morte, a caminho da câmara de gás, da cadeira elétrica, e não desejava isso para ninguém – nem para o bandido da luz vermelha, nem para Febrônio Índio malfeitor de meninos, Chico Picadinho, Fera da Penha ou o Rato da novela.

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Acompanhando Chessman na fuga do seu degredo no passado, estão aqui comigo, agora, os Protocolos dos Sábios do Sião (que nunca li), os Consêlhos aos Rapazes (pregando contra um vício com o qual eu ainda haveria se sujar a as mãos), o aterrador volume de Medicina Legal e suas fotos de fetos abortados, cabeças decepadas e os dois rapazes enforcados (“pacto de morte entre anormais”), a Hygiene da Mulher, e uma edição da Pais & Filhos guardada a sete chaves (junto com uma Playboy americana e seu inquietante pôster central). Na Pais & Filhos,  um bebê surgia sanguinolento de um lugar estranho, uma parte da anatomia que eu não conseguia identificar (e eu não tinha por que duvidar de minha mãe, que me assegurara que os bebês nasciam pelo umbigo).

O fundo do Mar da Memória esteve revolto hoje.

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Eduardo
(arquivo pessoal/Arquivo pessoal)

 

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