Crônica, por Eduardo Affonso: Negue
– Eu nem conheço essa mulher, Lourdes, não sei como ela veio parar aqui...
– Lourdes, não é nada disso que você está pensando!
(Ela não estava pensando nada. Não conseguia pensar em nada, ainda com a mão na maçaneta.)
– Eu nem conheço essa mulher, Lourdes, não sei como ela veio parar aqui.
(Era absurdo demais pra ser verdade.)
– Você não está achando que eu ia trair você, na nossa cama, e com uma mulher como essa, ia?
(Era justamente o que ela estava começando a achar. Trair, é claro que ele ia, mais dia, menos dia. Na cama deles, talvez. Definitivamente, não com uma mulher como aquela.)
Ele tinha que pensar algo rápido.
Já tinha dito três frases impensadas, e a quarta não vinha.
Já tinha dito até que não conhecia a mulher que estava, nua, ao seu lado, na cama.
Podia agora fingir amnésia.
– A última coisa que me lembro é sair do escritório e…
(Só o que faltava. Beber demais e perder a memória. Ou fingir que bebeu e perdeu a memória. O Alfredo era capaz de tudo.)
– … e acordar agora, com você entrando aqui no quarto.
Amnésia alcoólica.
Mais fácil que inventar uma pancada na cabeça, um tombo.
Não dava pra inventar um galo, um hematoma ou 6 pontos na testa assim, do nada.
– Fora isso, não lembro de nada.
Precisava ganhar tempo. Mas não muito tempo, porque vai que a Andressa – ou seria Jéssica? – acorda e o chama pelo nome.
– Vamos conversar lá fora, amor. Estou muito confuso.
A mulher nua espreguiçou, passou os braços pelo seu peito, enfiou as pernas entre as suas e murmurou alguma coisa vagamente parecida com “ai, Alfredinho”.
Coma alcoólica, coma alcoólica, como é que se finge coma alcoólica? E sem bafo nenhum!
Coma não-alcoólica, que seja.
Como é que se finge estar em coma profundo, e só acordar quando a Jéssica – ou Andressa – tiver ido embora, e a Lourdes tiver entendido que foi tudo um grande mal entendido, e houver finalmente um álibi pra estar na cama do casal, com uma mulher daquelas e ainda por cima chamada Andressa – ou seria Jéssica?
– Foi você quem armou isso pra mim, não foi, Lourdes? Botou a Jéssica, ou sei lá como é que se chama essa mulher, pelada aqui do meu lado enquanto eu estava dormindo, só pra me testar. Não foi? É a sua cara fazer isso!
Lourdes coçou a sobrancelha. Tinha trocado o voo pra chegar mais cedo e dar tempo passar em casa, tomar um banho, dar uma geral (Alfredo sozinho por uma semana, aquilo devia estar um caos).
Precisava estar no trabalho às 10, já eram quase 9.
Mas aquilo estava ficando muito divertido.
Puxou a poltroninha e sentou.
Só pra ver até onde o Alfredo ia com aquela história.







