Imagem Blog

Lu Lacerda

Por Lu Lacerda Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Jornalista apaixonada pelo Rio

Crônica, por Eduardo Affonso: Neruda, Neruda…

–É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade”. Meu Deus, como Neruda escreve bem!

Por Daniela 18 out 2026, 07h05
Homem idoso, careca, com cabelos brancos nas laterais, óculos de armação escura, rosto apoiado na mão direita, expressão pensativa, camisa clara, em tom roxo monocromático, fundo escuro
 (./Divulgação)
Continua após publicidade
Crônica, por Eduardo Affonso: Neruda, Neruda… Priorizar nos meus resultados Google

– Amo Neruda!

– Sério? Eu também. Bom saber que temos uma afinidade intelectual, não apenas atração física. Estudei muito a obra do Neruda e…

– “A pessoa certa é a que está ao seu lado nos momentos incertos.”. Não é lindo isso?

– É. Só não é do Neruda…

– “Deixe a vida fazer com você o que a primavera faz com as flores.” Ui!

Continua após a publicidade

– Não, não, o Neruda não escreveu isso. Você devia parar de…

– “Me encante da maneira que você quiser, / como você souber. / Me encante, para que eu possa me dar…”. Não é encantador?

– Para os fãs da Silvana Duboc, que é a verdadeira autora…

Continua após a publicidade

– “É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade”. Meu Deus, como Neruda escreve bem!

– Isso é do poeta português Eugénio de Andrade. A estrofe completa é “É urgente destruir certas palavras, / Ódio, solidão e crueldade / Alguns lamentos / Muitas espadas”. Ambos escreviam bem. No passado, porque os dois já morreram.

– Morreram para você, que não entende de poesia. Os gênios são imortais! Ouve isso: “Te amo / Te amo de uma maneira inexplicável. / De uma forma inconfessável. / De um modo contraditório.” Quer melhor definição do que seja amar de corpo e alma?

Continua após a publicidade

– É emocionante que você use o subjuntivo, mas isso é de uma canção do Gian Franco Pagliaro, um compositor italiano.

– Neruda, Neruda… “Morre lentamente / quem se transforma em escravo do hábito, / repetindo todos os dias / os mesmos trajetos.”

– Quem escreveu isso foi a Martha Medeiros, que…

Continua após a publicidade

– “Se não puderes ser um pinheiro no topo da colina, sê um arbusto”. Gente, “sê um arbusto” não é demais? Me arrepia toda!

– Bom saber que você se arrepia assim tão facilmente, mas isso é do Douglas Malloch’: “If you can’t be a pine on the top of the hill, / Be a scrub in the valley — but be / The best little scrub by the side of the rill; / Be a bush if you can’t be a tree.”.

– “Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida.” Que homem, meu Deus, que homem! E argentino, ainda por cima…

Continua após a publicidade

– Neruda era chileno, e o autor disso é Javier Velaza Frías, um poeta espanhol.

– Não importa! O que eu mais gosto do Neruda é este soneto, que eu sei de cor: “Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já… Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida… Saudade é sentir que existe o que não existe mais… Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam. Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou. E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudade, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido. E disso, meus amigos, eu não posso ser acusado: vivi, sofri, me apaixonei por tudo o que a vida me ofereceu!… Confesso que vivi!”

– Só o que tem do Neruda aí é o “Confesso que vivi” – e, mesmo assim, sem exclamação. Esse texto é do Aguinaldo Silva, de uma novela chamada “Fera ferida”. Além disso, soneto é…

– Ai, como você é insuportável! Como dizia aquele haicai da Clarice Lispector…

Eduardo
(arquivo pessoal/Arquivo pessoal)

 

Publicidade

Essa é uma matéria fechada para assinantes.
Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Multidão em protesto na rua, com pessoas de costas e braços erguidos, e capas da revista Veja com manchetes sobre política e notícias, promovendo jornalismo de qualidade
Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 32,90/mês