Crônica, por Eduardo Affonso: Neruda, Neruda…
–É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade”. Meu Deus, como Neruda escreve bem!
– Amo Neruda!
– Sério? Eu também. Bom saber que temos uma afinidade intelectual, não apenas atração física. Estudei muito a obra do Neruda e…
– “A pessoa certa é a que está ao seu lado nos momentos incertos.”. Não é lindo isso?
– É. Só não é do Neruda…
– “Deixe a vida fazer com você o que a primavera faz com as flores.” Ui!
– Não, não, o Neruda não escreveu isso. Você devia parar de…
– “Me encante da maneira que você quiser, / como você souber. / Me encante, para que eu possa me dar…”. Não é encantador?
– Para os fãs da Silvana Duboc, que é a verdadeira autora…
– “É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade”. Meu Deus, como Neruda escreve bem!
– Isso é do poeta português Eugénio de Andrade. A estrofe completa é “É urgente destruir certas palavras, / Ódio, solidão e crueldade / Alguns lamentos / Muitas espadas”. Ambos escreviam bem. No passado, porque os dois já morreram.
– Morreram para você, que não entende de poesia. Os gênios são imortais! Ouve isso: “Te amo / Te amo de uma maneira inexplicável. / De uma forma inconfessável. / De um modo contraditório.” Quer melhor definição do que seja amar de corpo e alma?
– É emocionante que você use o subjuntivo, mas isso é de uma canção do Gian Franco Pagliaro, um compositor italiano.
– Neruda, Neruda… “Morre lentamente / quem se transforma em escravo do hábito, / repetindo todos os dias / os mesmos trajetos.”
– Quem escreveu isso foi a Martha Medeiros, que…
– “Se não puderes ser um pinheiro no topo da colina, sê um arbusto”. Gente, “sê um arbusto” não é demais? Me arrepia toda!
– Bom saber que você se arrepia assim tão facilmente, mas isso é do Douglas Malloch’: “If you can’t be a pine on the top of the hill, / Be a scrub in the valley — but be / The best little scrub by the side of the rill; / Be a bush if you can’t be a tree.”.
– “Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida.” Que homem, meu Deus, que homem! E argentino, ainda por cima…
– Neruda era chileno, e o autor disso é Javier Velaza Frías, um poeta espanhol.
– Não importa! O que eu mais gosto do Neruda é este soneto, que eu sei de cor: “Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já… Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida… Saudade é sentir que existe o que não existe mais… Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam. Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou. E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudade, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido. E disso, meus amigos, eu não posso ser acusado: vivi, sofri, me apaixonei por tudo o que a vida me ofereceu!… Confesso que vivi!”
– Só o que tem do Neruda aí é o “Confesso que vivi” – e, mesmo assim, sem exclamação. Esse texto é do Aguinaldo Silva, de uma novela chamada “Fera ferida”. Além disso, soneto é…
– Ai, como você é insuportável! Como dizia aquele haicai da Clarice Lispector…






