Crônica, por Eduardo Affonso: Sonhos e medos
Hoje, dormir já é um sonho (a insônia transformou qualquer cochilo numa bênção)
Morrer dormindo era o meu grande medo de criança, e se tornou meu grande sonho de adulto.
Na infância era um problema porque nem sempre, à noite, dava tempo de me arrepender de todos os pecados do dia, antes que as ideias se embaralhassem e eu começasse a ressonar (os outros roncam; a gente ressona).
E também por eu não ter muita certeza do que seria pecado ou não. Xingar o irmão possivelmente era. Ter o olho maior que a boca e a boca maior que a barriga– como garantiam ser o meu caso –, idem. E nisso eu pecava diariamente. Mas não era por mal: eu não tinha culpa de meu irmão ser uma peste (palavra cuja pronúncia indubitavelmente era pecado). Nem de minha mãe cozinhar bem e eu ser um limpa-trilho (outra designação que me acompanha desde sempre).
Então, na dúvida, logo que me deitava eu pedia perdão pelos pecados que tivesse cometido e pelos que cometera sem ter consciência – e que deviam ser inúmeros, já que era a década de 60, era no interior de Minas e pecado, lá e então, era o que não faltava.
Daí meu medo de morrer dormindo. Devia ser horrível deixar os cadernos na pasta (com o dever de casa feito e revisado), escovar os dentes, botar o pijama, me enfiar embaixo das cobertas e, ao acordar, não haver mais cama coberta pijama pasta caderno – só o cheiro de enxofre e as labaredas. Porque era óbvio que eu iria para o inferno. Se não pelos pecados cometidos, pelos imaginados – e esses vinham sem que eu tivesse sobre eles qualquer controle, mesmo depois do pedido noturno de perdão. Claro que eu poderia pedir para ser perdoado pelos pecados vindouros, mas não era esperto a esse ponto (tanto que sofria com essa história de pecado).
Hoje, dormir já é um sonho (a insônia transformou qualquer cochilo numa bênção). Dormir e não acordar, então…
Penso na maravilha que há de ser morrer sem saber que estou morrendo. Sem tempo de me arrepender do que não fiz (a lista é infinitamente maior do que a do que tive oportunidade e coragem de fazer). Sem sentir dor – a morte vindo como uma anestesia geral (peridural não serve), enevoando tudo, apagando vozes, luzes, mágoas, cheiros.
Morrer para abrir os olhos do outro lado e não haver nem olhos nem outro lado. Ser exatamente como era antes daquele abril já distante: um imenso Nada, sem memória e sem desejo. E ver o que só se vê sem olhos: o breu. Acima, abaixo, atrás, adiante. De um lado e do outro, e dentro e fora. Ser o próprio breu. Sem barulho nenhum – nem o coração batendo, nem o funk na quadra de esportes, nem a vizinha arrastando móveis, nem a voz da consciência. Principalmente sem essa. O silêncio anterior ao Big Bang, posterior ao Big Crunch. Os fios do corpo se desconectando, para que os átomos se dispersem e não reste nada além daquele potinho de cinzas (Nota mental: deixar bilhete avisando que o seguro cobre cremação – mesmo que não faça sentido expressar vontades para quando já não puder ter vontades, como disse o Fernando Pessoa).
Tudo isso vem agora porque Alvin L. – aquele de “se houver outra vez / quero ser Hemingway”, de “o mundo devia ter inveja de mim / e não sabe”, de “tudo que eu posso te dar / é solidão com vista pro mar”, de “por que será que você não percebeu / que você quer alguém, como eu?”, de “o sol não sabe que ilumina” – dormiu. E não acordou mais.
Meu grande sonho de criança era chegar aos 100 anos. Hoje é o meu grande medo.







