Crônica, por Marcelo Madureira: De Capuletos & Montecchios
No final das contas, gente “bem” acaba sempre se “cruzando” — com duplo sentido, por favor
No último fim de semana, a nata da sociedade carioca se movimentou — devidamente protegida por seguranças gatérrimos — em torno do casamento de Giulia Be e Conor Kennedy.
A noiva é filha do empresário Paulo Marinho, também conhecido como “Coelho” nos tempos áureos da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (aquela que Naji Nahas assassinou). Paulo foi casado com a exuberante Maitê Proença e com a deslumbrante Odile, viúva de Porfírio Rubirosa — este último, o derradeiro playboy (junto ao saudoso Jorginho Guinle) do jet set internacional.
Para quem não é iniciado nas altas rodas: aqueles portentosos moedores de pimenta que os maîtres ostentam nos restaurantes carregam o apelido histórico de “Rubirosa”. Uma sutil alusão às dimensões avantajadas das partes pudendas do insaciável Porfírio, dote que enlouquecia as mulheres e despertava a inveja nos homens.
Menciono isso porque o pai da noiva carrega a mesmíssima fama: a de que a Mãe Natureza foi soberbamente generosa com ele no quesito “penduricalhos”. Paulo Marinho sempre foi um homme à femmes, um womanizer — recuso-me a usar o termo “mulherengo” do português, porque soa a cafajeste.
Não custa lembrar que os varões da família Kennedy também sempre foram altamente chegados ao “belo sexo”. A começar pelo patriarca, Joseph — filho de irlandeses católicos, alpinista de negócios e de mulheres que, de bootlegger (contrabandista de bebida) nos tempos da Lei Seca, chegou a embaixador dos EUA em Londres. O velho Joe colecionava em sua alcova estrelas de cinema e outras “horizontais” de alto coturno de Hollywood, para desespero da matriarca carola e careta, Rose Kennedy. Como se sabe, o filho e ex-presidente John F. Kennedy e seu irmão Robert (avô do noivo) deram continuidade à tradição testicocéfala do clã, inclusive dividindo, fraternalmente, os favores da diva imortal Marilyn Monroe.
Tudo isso para concluir que, no final das contas, gente “bem” acaba sempre se “cruzando” — com duplo sentido, por favor. Vocês sabem, em sociedade tudo se sabe. Já dizia o Ibrahim.
Esse casamento de proporções avantajadas contrasta com os dias que correm, em que pessoas de profundo mau gosto insistem em discutir Lula e Flávio Bolsonaro até na sauna do Marimbás. O assunto, vulgar e enfadonho, divide famílias tradicionais, joga no lixo amizades centenárias e abala até casais que antes toleravam civilizadamente seus respectivos adultérios.
Gente da aristocracia não discute política; gente de sociedade apenas “manda”, conforme seus interesses e conveniências. Veja lá se alguém da estirpe deles vai perder tempo de pé, numa fila de zona eleitoral, misturado a domésticas, porteiros, sujeitos de chinelo e bermuda vestindo camiseta do Vasco.
Nem morta!
Marcelo Madureira é humorista do Casseta & Planeta, paranaense de Curitiba e engenheiro de produção. Escreve o Agamenon no Substack com seu parceiro Hubert e participa do videocast “Não É Bem Assim”, no Canal Meio. Entre muitas outras coisas, é marido, pai e avô exemplar.






