Crônica, por Marcelo Madureira: E la nave vá
Meu escritório fica na praia de Ipanema, num andar tão alto que consigo enxergar a costa africana
O meu humilde escritório fica na Praia de Ipanema, de frente para o Oceano Atlântico, num andar tão alto que, quando o dia está bem claro, consigo enxergar o litoral africano. Nos dias de ócio, gosto muito de observar os navios que entram e saem da Baía de Guanabara.
Nos dias nebulosos, aponto o meu binóculo para observar o que acontece nos vestiários do “Clube”. O “Clube” a que me refiro é o Country Club do Rio de Janeiro, que os verdadeiramente descolados, como eu, chamam apenas de “O Clube”, posto que, na cidade, em termos de sofisticação, aristocracia e decadência, só existe um clube: o Country. Se surpreendo algo interessante nas minhas observações clubísticas, telefono imediatamente para a Lu Lacerda.
Mas, voltando aos navios, aprecio o movimento das embarcações indo e vindo no mar sem fim, mas há uma coisa que me deixa intrigado: os navios de passageiros. Antes glamorosos e românticos, hoje os antigos transatlânticos se transformaram em verdadeiros edifícios flutuantes, carregando milhares de viajantes sem destino algum, muito menos origem.
De uma feita, tomava um café em Veneza na companhia do meu amigo Diogo Mainardi. Enquanto palestrávamos sobre assuntos de natureza erudita, subitamente um Empire State ambulante cruzou o estreito canal, obliterando a paisagem. Ficamos chocados e não nos restou mais nenhuma esperança na humanidade.
Nunca viajei numa nave dessas, mas imagino que deve ser um inferno ficar trancado num espaço gigantesco e semovente, com as mesmas pessoas, o dia e a noite inteiros, todas com cara de clientes da CVC.
Pelo que me contaram, há filas intermináveis para tudo. E, se você almeja tomar sol na piscina, tem que acordar às quatro horas da manhã. Existem pelo menos 20 restaurantes diferentes, mas a cozinha é uma só, e a comida mexicana tem o mesmo gosto da francesa ou da jamaicana.
Isso para não falar desses cruzeiros temáticos. Imagine ficar hospedado num navio lotado de pagodeiros, apreciadores de sertanejo universitário ou fãs do Roberto Carlos — acompanhadas de seus cuidadores — que, no final do show, atiram suas fraldas geriátricas na direção do Rei.
Por que não organizam um cruzeiro temático só de advogados, juízes, promotores, procuradores, desembargadores e afins? No meio da viagem, um torpedo certeiro afunda o navio. Sem sobreviventes. O Brasil melhoraria muito.
Marcelo Madureira é humorista do Casseta & Planeta. Paranaense de Curitiba, é engenheiro de formação. Escreve o Agamenon no Substack com seu parceiro Hubert e participa do videocast “Não É Bem Assim”, no Canal Meio. Entre muitas outras coisas, é marido, pai e avô exemplar.







