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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Crônica, por Eduardo Affonso: Cultura inútil

Se o bom bordado se conhece pelo avesso, o relevante da vida pode estar nas suas desimportâncias

Por Daniela 16 ago 2026, 07h04
Colagem surrealista com mulher ruiva sentada, um polvo vermelho, um rádio antigo, um orangotango em um cajueiro, uma hiena, estátuas romanas e o planeta Saturno no céu, tudo em frente a um edifício modernista
 (./Divulgação)
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Minha mãe deve ter ouvido muito a Rádio Relógio durante a gestação, porque nasci com um apetite insaciável por informações do tipo “você sabia?”.

Sou viciado em cultura inútil. Se o bom bordado se conhece pelo avesso, o relevante da vida pode estar nas suas desimportâncias.

Alguns dos meses do calendário maia têm nomes hindus. Vênus gira na contramão dos outros planetas, e o dia lá dura mais que o ano. Da Vinci era canhoto. Diz-se que trinta anos é a idade da razão porque é mais ou menos esse o tempo de translação de Saturno. O clitóris da hiena fêmea é do mesmo tamanho do pênis da hiena macho.

A cada dia, acumulo mais e mais informações que nunca me fizeram falta, e poderia morrer sem tomar conhecimento delas que isso não tornaria minha vida mais (nem menos) vã.

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O polvo tem três corações e nove cérebros, um na cabeça e mais um em cada tentáculo. Juscelino Kubitscheck era de origem cigana. O ano em que fevereiro tem 29 dias se chama bissexto porque o sexto dia “antes das calendas de março” é que era repetido. Hitler foi aconselhado a fazer Arquitetura, já que não tinha talento suficiente para a pintura. “Orangotango” quer dizer “pessoa da floresta”, e não se referia ao primata, mas aos nativos daquela região da Indonésia.

Nada disso enriquece minhas conversas, me faz ganhar dinheiro ou chegar menos atrasado aos compromissos. Mas assim como a mão invisível dos segundos nos escava rugas milimétricas no rosto, enferruja as juntas e desfoca a visão, essas partículas subatômicas da realidade vão dando forma à nossa compreensão (ou incompreensão) do mundo.

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Será que o sangue nômade de Juscelino é que o teria feito levantar acampamento e mudar a capital para Brasília? Se Saturno, o deus soturno que devorou os próprios filhos, girasse mais rápido, amadureceríamos também um pouco mais cedo? Se Vênus não andasse para trás, o amor deixaria de ser um atraso de vida? Um vestibular menos exigente para a escola de Belas Artes de Viena nos teria poupado da Segunda Guerra Mundial? Jamais saberemos.

Mas eu sei (ninguém mais precisa saber) que agosto tem 31 dias porque, sendo uma homenagem ao imperador Augusto, não podia ser mais curto que julho, dedicado a seu antecessor, Júlio César (o dia a mais em agosto foi roubado de fevereiro, que por isso ficou só com 28). A palavra “histeria” vem do termo grego para “útero” (só as mulheres seriam, etimologicamente, histéricas). O fruto do cajueiro é a castanha, não o caju – logo, a árvore deveria se chamar castanheira. Mesmo decapitado pela fêmea, o louva-a-deus continua transando – e transa ainda melhor, porque, sem o cérebro, perde o medo de ser devorado.

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Ah, sim: Clarice Lispector teria sido gerada com a finalidade de curar a mãe, contaminada por sífilis num estupro (havia a crença de que uma gestação teria esse efeito). E foi apaixonada por um escritor homossexual, a quem ela também achava que deveria “curar”.

Saber isso não muda nada.

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Ou muda tudo?

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