Invertida, com Cíntia Chagas (comunicadora): “Tenho impulso pelo prazer”
Encantada com o Rio, brinca: "As Helenas de Manoel Carlos não seriam tão poéticas se vivessem em São Paulo"
“Água morna não serve nem para fazer chá. Nada na minha vida é morno”, diz a escritora, palestrante e exímia professora de português Cíntia Chagas no início da conversa com a coluna. Embora mineira, Cíntia nunca foi do tipo “come quieta”. Para seus quase oito milhões de seguidores no Instagram, transformou a gramática em entretenimento, misturando regras de português com humor (há quem não entenda), ironia e o prazer de provocar, além de defender regras rígidas de etiqueta, com opiniões consideradas conservadoras — por alguns.
No entanto, ela tem dividido espaço com uma nova fase: está viajando o país para lançar “Sexo, amor e hipérboles”, livro de ficção com 30 contos que escancaram os desejos, as contradições e as hipocrisias de personagens muito mais preocupados em parecer do que em ser, como promotores de Justiça, influenciadores religiosos e casais sustentados por acordos silenciosos.
A vida amorosa de Cíntia virou quase assunto de interesse nacional: em 2019, casou-se com o psicanalista Luiz Fernando Garcia. O casamento durou um ano. Em 2024, subiu novamente ao altar, desta vez na Itália, numa bela cerimônia sem convidados, com o deputado estadual paulistano Lucas Bove. Pouco mais de três meses depois, a separação parou nas páginas policiais, quando Cíntia o denunciou por violência doméstica, física e psicológica. O processo corre em segredo de Justiça, com medidas protetivas em favor da professora. Mas essa mulher forte esquece os — como dizer? — transtornos afetivos com facilidade, sem jamais fazer cara de sofredora, de quem está sempre usando um espartilho, se é que você me entende.
“A minha atuação profissional é impetuosa, efusiva, incandescente. A minha vida pessoal também. Para você ter ideia, apaixonei-me pela primeira vez aos sete anos. E durou até os doze. Aos 12, apaixonei-me febrilmente por outro. Durou até os 18, 19. De lá para cá, tive dezenas de paixonites. Como dizia Cazuza, ‘eu adoro um amor inventado’.”
Os rótulos, aliás, divertem mais do que incomodam. Ela rejeita o título de influenciadora e prefere o de professora de português ou comunicadora. Mas há um apelido que lamenta não ter emplacado. “Em 2015, o G1 colocou-me na capa chamando-me de ‘professora gata’. Um grupo de mulheres criticou a alcunha por enxergar na manchete uma objetificação feminina. Rapidamente, o G1 modificou a chamada. Fiquei chateada. Eu adoro ser a professora gata. Isso não diminui a minha indiscutível competência.”
Encantada com o Rio, brinca: “As Helenas de Manoel Carlos não seriam tão poéticas se vivessem em São Paulo. Amo SP, mas admitamos que o Rio é poético, quase onírico.” Ela estará na cidade em agosto para a gravação do programa “Arena dos Saberes”.
Leia a “Invertida”:
UMA LOUCURA: a retirada do trema. Lingüiça é diferente de linguiça, ora.
UMA ROUBADA: colocar o sobrenome do marido. Isso é uma verdadeira roubada. Primeiro, porque dá muito trabalho trocar documentos; segundo, porque o nome é a nossa primeira identidade. Trata-se da palavra por meio da qual somos reconhecidos desde o nosso nascimento, ou seja, a alteração do nome pode se configurar, simbólica e pragmaticamente, como a anulação da própria identidade; terceiro, porque é anacrônico. Não precisamos mais disso.
UMA IDEIA FIXA: sexo, morte e dinheiro. Penso em sexo, morte e dinheiro diuturnamente. Talvez por isso seu tenha escrito um livro sobre sexo e saiba ganhar dinheiro tão bem. Sobre a morte, como disse Fernando Pessoa, “é a coisa depois da qual nada acontece”. Pode, então, haver motivo de maior inquietude? Diga para mim.
UM PORRE: gente que deslegitima a felicidade da mulher que não deseja ser mãe. “Não vai ter filhos mesmo? Quem vai cuidar de você na velhice? Só conhecemos o amor verdadeiro quando somos mães. Na hora certa, você vai querer ter”. Não sei o que me espanta mais: a limitação interpretativa de mundo ou a chatice desses indivíduos. São um verdadeiro porre!
UMA FRUSTRAÇÃO: a minha avó não poder desfrutar de tudo o que conquistei. Ainda que se tratasse de uma mulher quase estóica, pouco ligada aos bens materiais, eu gostaria de ter retribuído, materialmente, tudo o que ela fez por mim. A morte da minha avó é uma frustração. Aliás, a morte é quase sempre uma frustração.
UM APAGÃO: homens desinteressantes com quem me relacionei. Eu simplesmente os apago da minha memória. Se não me lembro, não fiz.
UMA SÍNDROME: a síndrome da autossuficiência. Nunca fiz “networking”, com o perdão do estrangeirismo. Há mais de uma década, o meu Instagram é um cartão de visitas que sempre atraiu clientes, contratantes e parceiros profissionais diversos. Não preciso sair para bajular ninguém. Fiquei mal-(ou bem?) acostumada.
UM MEDO: da morte. Aliás, como dizia Woody Allen, não quero estar presente quando ela ocorrer.
UM DEFEITO: torço para o time do namorado da época. Defeito gravíssimo.
UM DESPRAZER: observar a banalização das palavras. Empoderada, resiliência, ressignificar, narrativa, jornada, experiência, gatilho, gratidão, tóxico… Tóxica é a relação que muitos passaram a estabelecer com as palavras, as quais vêm sofrendo, sistematicamente, abusos. Se Ariano Suassuna estivesse vivo, matar-se-ia.
UM INSUCESSO: honestamente, não me lembro de nenhum. Isso faz de mim uma pessoa arrogante? Espero que não. Risos.
UM IMPULSO: tenho impulso pelo prazer. Sou uma epicurista incorrigível. Entrego-me, sem pestanejar, em plena segunda-feira à tarde, aos prazeres que um bom vinho, uma boa companhia ou um bom livro podem dar. Por isso trabalhei tanto. E por isso jamais quis ter filhos. Vivo para me dar prazer. A abnegação necessária às boas mães nunca esteve nos meus planos.
UMA PARANOIA: o meu sono é uma paranoia. Preciso de pelo menos nove horas por dia de sono e uso duas máscaras de dormir. Coloco uma no rosto e deixo outra ao lado do travesseiro, para o caso de a primeira sair. E ainda confiro o blecaute do quarto duas ou três vezes antes de pegar no sono. E ai de quem me acordar!





