Invertida, com Rosiska Darcy: “Tenho medo que perca o encanto”
A imortal acaba de comemorar 82 anos e ganhou de presente um livro fotobiográfico feito pelas amigas
A escritora Rosiska Darcy de Oliveira, imortal da Academia Brasileira de Letras, acaba de comemorar 82 anos — e ganhou de presente um livro fotobiográfico feito pelas amigas: a jornalista Cristina Aragão, a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira e a historiadora Maria Celeste Garcia. Foram quase dois anos dedicados a fotos, pesquisas, textos e memórias. O resultado ganhou forma com a designer Eduarda de Aquino, filha de Cristina, que ajudou a dar o tom visual vibrante.
“O livro é uma alegria, porque Rosiska é luminosa — e sempre dizia que queria um livro colorido, como os filmes de Pedro Almodóvar”, diz Aragão.
Entre as imagens, muitas são assinadas por Miguel Darcy, marido de Rosiska há 58 anos — inclusive a foto de capa. Publicado pela Pinakotheke, o livro vai além do retrato pessoal e funciona como um documento importante da história do feminismo no Brasil.
Carioca, nascida na Gávea Pequena, cercada de Mata Atlântica, Rosiska se formou em Direito pela PUC-Rio e começou no jornalismo ainda nos anos 1960. Casou-se aos 24 anos e, um ano depois, foi para o exílio na Suíça, durante a ditadura. Viveu 15 anos em Genebra, onde conheceu nomes como Paulo Freire e Jean Piaget — sobre quem costuma dizer: “Piaget me introduziu ao pensamento científico e à cultura global. Foi a pessoa mais brilhante que conheci na vida. Nesses anos, e a partir daí, corri o mundo, corri perigo. Estive nos cinco continentes, fiz palestras em todos eles e participei de passeatas defendendo as mulheres. Sou feminista a vida inteira — e tenho orgulho disso”, diz.
De volta ao Brasil, atuou como assessora especial de Darcy Ribeiro, então vice-governador do Rio, e fundou a Coalizão de Mulheres Brasileiras. Em 1995, assumiu a presidência do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, ampliando ainda mais sua atuação pública.
Tem 13 livros publicados e é editora da Revista Brasileira, da ABL — cuja última edição, dedicada ao tema “envelhecer”, dialoga diretamente com seu momento pessoal: com lucidez, produção, vitalidade e, claro, o autodomínio de sempre.
UMA LOUCURA: Atravessar a selva africana, dirigindo uma Land Roover, vadeando rios, atolando nos lamaçais, espantando os bichos, macacos, cobras, com uma criança de um ano que foi jogada dentro do carro e que viajava sozinha, ou supostamente comigo, para ser entregue a mãe, em Senegal, entre o nada e o coisa nenhuma, no interior da Guiné Bissau. A menininha, de pavor, não dava um pio, só olhava para mim e nos entendíamos. A jornalista alemã que me acompanhava, entre lágrimas e um iminente ataque de nervos. A contragosto, dei-lhe um Valium (calmante) da minha reserva para as viagens de avião. E adorei tudo isso.
UMA ROUBADA: Gastar uma fortuna em euros, para assistir a La Traviata – que eu adoro – em Paris, e sair no fim do primeiro ato. A cena do baile era no cemitério, todos de luto, e algum gênio deve ter achado que essa inovação interpretativa ia arrasar. A julgar por mim, preferi caminhar na noite tépida da Place de Vosges e, cantarolando minhas árias preferidas, tomar uma taça de bom vinho para esquecer a roubada.
UMA IDEIA FIXA: Escrever uma determinada história que me persegue há 40 anos. Tenho a sensação de que se fosse escrita deixaria de ter acontecido, se tornaria ficção. E entre a vida real e a ficção sempre escolhi a vida real. Talvez um dia, em um livro de memórias…mas isso é uma outra história. Espero que não me falhe a memória. A literatura às vezes machuca o autor. Dói.
UM PORRE: Adoro vinho, um gosto caro que não estimula um porre. Não está nos meus hábitos. Mas um porre de vinho, num fim de noite fria, é um paraíso. O paraíso é raro, e caro.
UMA FRUSTRAÇÃO: Nunca ter tido a coragem de saltar de asa delta e sobrevoar a minha casa que fica a 300 m do ponto de decolagem, na Pedra Bonita. Voltear sobre o mar e pousar na areia . Em suma, não ser um pássaro e sim uma pobre mulher que tem medo de avião.
UM APAGÃO: Exílio. Nevou a noite toda no domingo de Carnaval. E eu pensando nas escolas evoluindo na Avenida, e me lembrando dos pássaros de asas enormes, bêbados, que vi dormindo pelas calçadas, exaustos, depois de um voo cego sobre a escola. Cenas assim, o esplendor do Carnaval. Lá, uma noite gélida e silenciosa. Mas não me queixo, fui muito feliz na Suíça onde não torturavam ninguém e eu podia pensar e escrever o que quisesse. Um país lindíssimo no centro da Europa. Só que, às vezes, sentia cheiro de maresia no lago Leman. Deve ter sido alucinação. Volto lá sempre que posso – deixei grandes amigos – e sempre tenho a sensação de quem chega na sua casa de campo. Mas não deixa de ser um pouco minha casa.
UMA SÍNDROME: A síndrome de quem viveu 15 anos na Suiça – uma chocólatra que nunca chega atrasada, dá bom dia quando entra no elevador, não fura fila e fala baixo nos restaurantes. Fora isso, sou uma carioca conformada com o caos nosso de cada dia. E não me irrito com quem se atrasa… Espero o abraço quente, bom, que os cariocas sabem dar, enquanto explicam que estão muito chateados porque caíram num engarrafamento.
UM MEDO: A perda das minhas testemunhas, amizades e amores que iluminaram a minha vida. Quando a idade avança , o mundo que foi o nosso vai se esvaziando. Tenho medo que perca o encanto.
UM DEFEITO: Acreditar que a Humanidade vai melhorar.
UM DESPRAZER: O computador que apaga, não sei porque, tudo que escrevi. Ou não liga. Desligo e vou, em sonhos, passear de gôndola nos canais de Veneza. Vingança suprema, supremo prazer! Que tecnologia sádica pode alguma coisa contra o imaginário?
UM INSUCESSO: A tentativa recente de me tornar atleta, quebrar o sedentarismo confortável em que passei a vida instalada, para andar numa esteira sem sair do lugar até quase infartar…chegando a lugar nenhum. Deve ser bom para a minha saúde, opinião unânime entre os médicos. Comecei a ter dores que não tinha, um cansaço que eu não sentia e um humor de cão bravio. Mas, na certa, com dores, cansaço e mau humor, devo estar muito mais saudável… O insucesso é não perceber essa evidência.
UM IMPULSO: Jogar pela janela a caixinha de remédios vários, um para cada mazela, me impondo uma disciplina que não rima com os meus desejos. A vingança do escritor é a possibilidade de sublimação pela escrita. Escrevi um ensaio chamado “Corpo paciente, corpo impaciente”. Um desabafo que nunca publiquei.
UMA PARANOIA: Perder a alegria de escrever. A fé, no sentido religioso e político, já se foi, a golpes de sucessivos milagres esperados e desmentidos. Resta esse milagre cotidiano que é a alegria da Criação. Em que eu ainda acredito e a que sirvo com alegria. É ela, e esse outro mistério que é o amor, que dão sentido a minha vida.





