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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Marie Bèndelac: Cuidar da mente é gestão — não gentileza

Saúde mental não se resolve com discurso. Se resolve com prática

Por Daniela
19 jan 2026, 10h16 •
asdas
 (ChatGPT/Divulgação)
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  • De forma intencional, decidi não escrever este artigo trazendo mais dados, estatísticas ou grandes conceitos teóricos para tentar convencer líderes e empresas de que saúde mental é importante. Eu sei que isso todos já sabem.

    Empresários, executivos e lideranças estão cansados de ouvir que precisam investir em saúde mental, cuidar das pessoas e criar ambientes mais saudáveis. A pergunta que realmente escuto no dia a dia é outra:

    “Como fazer isso na prática, em meio à pressão, às metas, aos afastamentos por ansiedade e à realidade concreta do trabalho?”

    Foi a partir dessa pergunta que escolhi escrever este artigo.

    No meu trabalho acompanhando líderes, empresários e empreendedores — e também na minha própria trajetória como empresária — aprendi algo fundamental: quando a saúde mental se fragiliza, não é por acaso. É porque necessidades humanas básicas não estão sendo atendidas. Descanso, reconhecimento, autonomia, crescimento, pertencimento, segurança. Elas continuam existindo, independentemente do cargo ou do faturamento.

    A Comunicação Não Violenta foi — e continua sendo — uma das ferramentas mais práticas que encontrei para sair do modo automático e voltar a escutar essas necessidades antes que o corpo e a mente entrem em colapso. Ela não é sobre ser gentil o tempo todo, nem apenas um jeito de falar, mas sobre ser consciente, responsável e claro. Criada pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg, a CNV nos ensina, na prática, a identificar e nomear emoções, sentimentos e necessidades — a base da inteligência emocional e da saúde mental.

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    A partir disso, compartilho três estratégias concretas, aplicáveis e possíveis, que vejo funcionarem na prática.

    1. Identificar e respeitar as próprias necessidades não é luxo, é vida

    Muitas pessoas não sabem do que precisam. Sabem apenas que estão cansadas, irritadas ou ansiosas. Vivem no piloto automático, hiperconectadas à tecnologia e às redes sociais, mas desconectadas de si mesmas. No meu caso, entendi que precisava de estratégias diárias para descansar a mente no meio de uma rotina intensa de trabalho — silêncio, introspecção e atividades que me ajudassem a voltar para mim.

    Yoga, atividade física, terapias, momentos de oração e meditação deixaram de ser algo acessório e passaram a fazer parte da minha rotina profissional. Não porque eu tivesse tempo sobrando, mas porque percebi que, sem isso, simplesmente não funcionava no meu potencial máximo de produtividade e criatividade.

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    Empreendedores e empresários vivem uma realidade diferente de quem é CLT. Não existe um contrato que garanta férias. É preciso se autorizar. Se permitir. Preservar a própria saúde mental não é um ato egoísta; é responsabilidade. Quando o líder adoece, todo o sistema sente.

    Reconhecer a dificuldade de parar — e pedir ajuda, se necessário — pode ser o primeiro passo para sair do círculo vicioso.

    2. Gestão de tempo e prioridades também é cuidado com a mente

    Saúde mental passa diretamente pela forma como lidamos com o tempo. A sensação constante de urgência, de estar sempre devendo, de responder tudo e todos o tempo todo mantém o corpo em estado de alerta permanente.

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    Eu precisei aprender a dizer não. A não responder todas as mensagens imediatamente. A me desconectar das redes sociais em determinados períodos do ano, especialmente no fim do ano e em janeiro. Isso não é negligência. É escolha consciente.

    Quem não define prioridades reais acaba vivendo sob as prioridades dos outros. E esse padrão, no médio e longo prazo, cobra um preço alto. Eu sei porque já estive à beira do burnout algumas vezes. Só não entrei em colapso porque uma das minhas especializações foi em Health & Wellness Coaching, o que me ensinou a reconhecer os sinais de exaustão logo no início.

    3. Relações saudáveis são um pilar inegociável da saúde mental

    Nada gera mais estresse do que relações tensas, comunicação agressiva, ambientes de julgamento ou situações de assédio. Muitos afastamentos por ansiedade e burnout não nascem da carga de trabalho em si, mas da forma como as pessoas são tratadas.

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    Ser bem tratado não é detalhe. É condição básica de saúde mental. A Comunicação Não Violenta ajuda a separar fatos de julgamentos, reduzir acusações, cobrar e dar feedback de forma construtiva, criar conversas mais claras e estabelecer limites sem agressividade.

    No Método CONECTA, que desenvolvi a partir dessa abordagem, vejo diariamente líderes aprenderem a se posicionar com firmeza sem adoecer, a colocar limites sem culpa e a lidar com conflitos sem se perder emocionalmente. Comunicação é saúde. Comunicação é prevenção.

    No fim, talvez o maior equívoco seja acreditar que saúde mental se resolve apenas com políticas institucionais ou discursos bem-intencionados. Ela se constrói na prática, todos os dias, a partir das escolhas que fazemos, das relações que sustentamos e dos limites que aprendemos a respeitar.

    Cuidar da mente no dia a dia não é simples. Vivemos em um mundo hiperconectado, acelerado, que confunde disponibilidade com comprometimento e urgência com importância. A pressão não vem apenas de fora; ela também é internalizada. Muitas vezes, somos nós mesmos que nos cobramos, nos comparamos e nos empurramos além do limite.

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    Por isso, falar de saúde mental exige maturidade. Não se trata de eliminar o estresse, o conflito ou a pressão — isso seria irreal. Trata-se de aprender a conviver com eles de forma mais consciente, sem negar o que sentimos e sem normalizar o adoecimento como preço do sucesso.

    A Comunicação Não Violenta não oferece atalhos nem soluções mágicas. Ela oferece algo mais valioso — e mais difícil: consciência. Consciência das próprias necessidades, dos próprios limites e do impacto que a forma como nos comunicamos tem sobre nós mesmos e sobre os outros. Em um mundo ruidoso, aprender a escutar — inclusive a si — é um ato profundamente contracultural.

    Talvez o verdadeiro avanço não esteja em fazer mais, responder mais rápido ou estar sempre disponível. Talvez esteja em fazer escolhas mais claras, sustentar limites com responsabilidade e aceitar que cuidar da mente, hoje, é um exercício constante, imperfeito e necessário.

    Não é fácil. Mas é o que torna possível seguir trabalhando, liderando e empreendendo sem se perder de si no processo.

    Boa semana!

    Marie
    (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)
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