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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Marie Bèndelac: O que CEOs podem aprender com Didier Deschamps

Não o vejo apenas um treinador conduzindo uma seleção, mas alguém lembrando que grandes equipes não são construídas apenas com talento

Por Daniela 6 jul 2026, 09h00 | Atualizado em 6 jul 2026, 11h57
Um homem de cabelos brancos e terno azul abraça um jogador de futebol de costas, com camisa azul listrada, número 10 e MBAPPE escrito. O homem sorri amplamente, mostrando os dentes, e o jogador tem cabelo crespo escuro
Didier Deschamps, técnico da seleção francesa, abraçando o camisa 10 Kylian Mbappé (Instagram/Reprodução)
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Como francesa, naturalmente, acompanho a seleção da França na Copa do Mundo e me peguei observando as atitudes do Didier Deschamps, o treinador. Pensei: o que ele pode nos ensinar sobre liderança?

Sempre ouvir falar bem dele como líder e resolvi pesquisar sobre ele. Desde que assumiu a seleção francesa, em 2012, Deschamps construiu uma trajetória rara. Levou a França às quartas de final da Copa de 2014, à final da Eurocopa de 2016, conquistou a Copa do Mundo de 2018, venceu a Liga das Nações em 2021, voltou à final da Copa em 2022 e, agora, em 2026, mais uma vez coloca a França entre as seleções mais competitivas do torneio.

Em um ambiente onde a pressão é permanente, a cobrança é diária e qualquer decisão é analisada por milhões de pessoas, permanecer tantos anos em alto nível talvez seja uma das maiores demonstrações de liderança.

Enquanto observava essa trajetória, comecei a pensar nos CEOs que acompanho.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, eles não chegam até mim procurando fórmulas mágicas para aumentar faturamento ou produtividade. Vejo líderes profundamente comprometidos, que carregam uma enorme responsabilidade e fazem um esforço diário para tomar boas decisões, desenvolver pessoas, proteger a cultura da empresa e construir resultados sustentáveis.

Talvez seja justamente por isso que encontrei tantas semelhanças entre esses dois mundos. Liderar e reter talentos não é tarefa fácil. Mas talvez o maior desafio seja fazer com que talentos extraordinários queiram construir algo maior do que eles mesmos sem se deixar conduzir pelo ego.

A França reúne alguns dos melhores jogadores do mundo. Ainda assim, quando assisto aos jogos, não tenho a sensação de ver um conjunto de estrelas tentando aparecer individualmente. Vejo uma equipe.

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E isso me faz refletir sobre uma das maiores responsabilidades de qualquer líder.

Como extrair o melhor das pessoas sem transformá-las em máquinas deshumanizadas?

Como criar equipes altamente comprometidas, capazes de superar seus próprios limites, sem levá-las à exaustão?

Esse talvez seja um dos maiores desafios da liderança contemporânea.

Durante muitos anos, admiramos líderes que conseguiam resultados extraordinários a qualquer custo. Aos poucos, começamos a perceber que a forma – como esses resultados são alcançados – também importa.

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Não porque as empresas devam abrir mão da alta performance. Muito pelo contrário. Empresas existem para gerar resultados.

Mas acredito que exista um caminho mais inteligente, humano e sustentável.

Vejo muitos líderes tentando encontrar esse equilíbrio todos os dias. Precisam ser firmes sem serem autoritários. Precisam acolher sem criar dependência. Precisam considerar emoções, sentimentos e necessidades das pessoas sem perder clareza, responsabilidade e direção.

Não é simples. Liderança humanizada nunca significou ausência de exigência. Significa exigir com respeito, dar feedback sem humilhar, corrigir sem destruir, escutar sem perder a firmeza.

Talvez seja justamente essa combinação que eu enxergue em Didier Deschamps.

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Quanto mais procuro entrevistas tentando descobrir o segredo do seu sucesso, mais encontro alguém falando pouco sobre si mesmo e muito sobre sua equipe.

Ele costuma dizer que a força do coletivo vem antes de qualquer individualidade.

Também chama atenção sua capacidade de adaptação. Em vez de tentar encaixar jogadores em um único modelo de jogo, adapta o sistema às características do grupo que tem em mãos. Essa flexibilidade exige uma virtude que considero essencial para qualquer líder: humildade.

Humildade para reconhecer que pessoas diferentes precisam de abordagens diferentes, para continuar aprendendo, para entender que resultados extraordinários não eliminam a necessidade de continuar evoluindo.

Mesmo durante esta Copa, depois de boas vitórias, suas entrevistas continuaram revelando preocupação com ajustes, equilíbrio e evolução da equipe.

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Isso me fez pensar em algo que observo nos melhores CEOs que acompanho: eles nunca deixam de aprender. Buscam conhecimento constantemente, mas entendem que conhecimento, sozinho, não basta.

Na minha visão – ainda mais na era da inteligência artificial – o verdadeiro diferencial está no autoconhecimento.

Ninguém consegue desenvolver pessoas de forma consistente sem aprender, primeiro, a desenvolver a si mesmo.

É difícil regular conflitos sem aprender a regular as próprias emoções.

É difícil construir confiança sem desenvolver a capacidade de escutar.

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É difícil liderar pessoas sem compreender os próprios limites, valores e motivações.

Ao longo da minha trajetória como líder e empresária, percebi que a liderança sustentável se apoia em três pilares inseparáveis:

1. O gerenciamento de si mesmo,

2. O gerenciamento das pessoas

3. O gerenciamento dos negócios.

Quanto maior a consciência que um líder desenvolve sobre si mesmo, maior tende a ser sua capacidade de compreender o outro, construir relações de confiança e tomar decisões equilibradas.

Existe ainda um aspecto da história de Didier Deschamps que talvez ajude a compreender parte dessa maturidade. Aos 19 anos, ele perdeu o irmão, Philippe, em um acidente aéreo. Naturalmente, ninguém pode afirmar o impacto exato que essa experiência teve sobre sua liderança. Mas o próprio Deschamps já reconheceu, em diferentes entrevistas, que aquele momento marcou profundamente sua forma de enxergar a vida.

Talvez as experiências mais difíceis não nos tornem automaticamente líderes melhores.

Mas, quando somos capazes de aprender com elas, podem ampliar nossa humanidade, nossa capacidade de escuta e nossa maturidade.

A Comunicação Não Violenta me ensinou algo muito importante ao longo desses anos. Pessoas não entregam o seu melhor quando vivem com medo. Mas também não crescem quando são privadas da responsabilidade pelas próprias escolhas.

Liderar talvez seja justamente isso: criar um ambiente onde confiança, disciplina, pertencimento, responsabilidade e respeito caminhem juntos.

No fim das contas, observando Didier Deschamps, não vejo apenas um treinador conduzindo uma seleção.

Vejo alguém lembrando, de forma muito silenciosa, que grandes equipes não são construídas apenas com talento.

São construídas com confiança. E confiança nasce da forma como um líder escolhe se desenvolver todos os dias.

Excelente semana!

Marie
(Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)
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