Polêmica do foie gras continua: chefs franceses no Rio comentam
A Associação Interprofissional de Patos e Gansos para Foie Gras (Cifog) passou a pressionar o governo federal brasileiro contra a medida
A polêmica do foie gras ganhou um ingrediente a mais — depois de quase dois meses de aprovação pelo Congresso Nacional, o projeto que proíbe a produção e a comercialização da iguaria no Brasil continua parado na Câmara dos Deputados, aguardando envio para sanção presidencial.
Enquanto isso, a Associação Interprofissional de Patos e Gansos para Foie Gras (Cifog) passou a pressionar o governo federal brasileiro contra a medida. O Brasil movimenta mais ou menos € 1 milhão por ano (quase R$ 6 milhões) em importações do produto e representa um mercado considerado importante. A associação afirmou que a proibição seria um “primeiro desvio” do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.
A coluna ouviu o chef Claude Troisgros, francês que chegou ao Brasil em 1979, vindo de uma das linhagens mais prestigiadas da alta gastronomia mundial. “Eu apoio essa proibição, porque com a evolução da gastronomia para um caminho mais orgânico, mais sustentável, tudo o que envolve a produção de foie gras e outros animais, a gente está tomando cuidado. Acredito que temos que apoiar o mundo e a sustentabilidade o tempo todo. É um caminho que está sendo seguido para o mundo inteiro. É um produto que os meus avós e pais adotaram, mas que hoje o mundo não tem como adotar mais”.
A coluna também falou com o chef francês Grégoire Fortat, do La Villa Bistrô, em Botafogo: “Recentemente, a situação era confusa: cidades como São Paulo proibiam o consumo, mas os tribunais anulavam a proibição dizendo que ‘uma cidade não pode mandar no comércio’. Para um estrangeiro, era difícil entender por que em uma rua era proibido e na outra não. A nova lei federal, se sancionada, traz a uniformidade que faltava, eliminando essa insegurança para os chefs”, afirma.
Fortat segue: “O debate brasileiro é dominado pela questão do bem-estar animal. Para muitos brasileiros, a técnica da gavagem é vista como tortura, e não como um método técnico de produção. Em nosso restaurante, iremos respeitar a lei. Na França, o foie gras é um produto comum e barato, usado em entradas e pratos principais. No Brasil, é caro e tem pouca saída. Portanto, a proibição não irá atrapalhar nossa rotina.”
Do outro lado da discussão, nota conjunta, a Associação Nacional de Advogados Animalistas (ANAA), a Animal Equality e a Mercy For Animals: “A Constituição Federal proíbe práticas cruéis contra os animais, e nenhum interesse econômico estrangeiro pode se sobrepor a esse mandamento constitucional”, afirma a presidente da ANAA, Giseli Cheim. “Esta é uma conquista histórica que não pode ser sequestrada por pressão diplomática”, diz Marina Lemes, gerente de projetos da Animal Equality.
Já George Sturaro, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da Mercy For Animals, lembra um precedente: “Em 2014, a Índia proibiu a importação de foie gras por razões éticas, sem sofrer retaliações comerciais ou diplomáticas, demonstrando que esse tipo de medida é juridicamente compatível.”
O projeto tramitou por seis anos no Congresso e teve mais de 288 mil assinaturas em apoio antes de sua aprovação.





