Prem Baba: “O sexo pode ser uma poderosa experiência espiritual”
No fundo, todo caminho espiritual autêntico ajuda a integrar os aprendizados, compreender as experiências que vivemos
Existe destino ou somos nós que o construímos a cada escolha? É essa a provocação de Destino – O poder do karma, do guru Sri Prem Baba, recém-lançado no Rio e já nas livrarias.
Nele, o mestre espiritual parte da ciência do karma para defender que pensamentos, emoções e ações moldam o futuro e que a vida não é uma sequência de castigos ou recompensas, mas um permanente convite ao autoconhecimento. A pergunta faz ainda mais sentido quando dirigida ao autor. Nascido em São Paulo como Janderson Fernandes de Oliveira, Prem Baba diz que desde criança buscava respostas para o propósito da existência. Às vésperas dos 33 anos, em meio a uma crise existencial, afirma ter recebido um chamado para ir à Índia, onde encontrou seu mestre espiritual e iniciou o caminho que o transformaria em um dos líderes espirituais brasileiros mais conhecidos dentro e fora do país.
Sua carreira também foi marcada, digamos, por provações e, em 2018, viu sua reputação maculada depois de acusações de assédio sexual, o que sempre negou. A denúncia criminal acabou arquivada por falta de provas, mas até então ele foi “cancelado”, o que o levou a um período de recolhimento.
Hoje, aos 60 anos, Prem Baba diz que a crise foi um “doutorado”. Todos os detalhes do episódio estão na autobiografia Em Busca da Verdade.
Nas redes, ele tem mais de 260 mil seguidores encantados pelos seus ensinamentos. Nos comentários, é comum as pessoas afirmarem que ele transformou suas vidas.
1. Depois de publicar a autobiografia, porque sentiu que era o momento de escrever um livro sobre o destino?
Quando completei 60 anos (setembro passado) e lancei a autobiografia, senti que era o momento de fazer um balanço da minha trajetória e quis compartilhar o caminho que percorri como buscador espiritual, com seus desafios, quedas, aprendizados e descobertas. Acredito que essa experiência possa inspirar outras pessoas na própria busca. Curiosamente, Destino começou a ser escrito antes, em 2023. Mas percebi que, antes de falar sobre o futuro, precisava revisitar o passado. Naquele momento, entendi que era importante compreender a estrada percorrida antes de refletir sobre a direção que estamos dando à nossa vida. Esse novo livro nasce justamente dessa continuidade. Depois de olhar para trás, senti que era hora de aprofundar a pergunta: afinal, o destino existe? O que proponho é que o destino não é algo fixo nem um roteiro imutável. Ele é construído continuamente pelos nossos pensamentos, palavras e ações, nesta vida e, para quem aceita essa perspectiva, também em vidas passadas. É isso que chamamos de karma. Cada escolha deixa uma marca e contribui para desenhar o caminho que seguimos. Ao mesmo tempo, essa construção não depende apenas da vontade individual. Existe uma dança entre o livre-arbítrio e a graça divina. Fazemos escolhas, mas a vida também nos apresenta oportunidades, encontros e desafios que nos convidam a crescer. Compreender essa dinâmica nos devolve algo muito precioso: a responsabilidade pelo nosso futuro, sem perder a confiança na inteligência maior que conduz a vida.
2. Na sua autobiografia, o período iniciado em 2018 é descrito como uma “tormenta kármica” e, mais tarde, chegou a dizer que aquele momento foi um “doutorado”. Hoje, com a distância do tempo, qual foi o maior aprendizado daquela crise? Ela mudou a forma como o senhor enxerga destino e karma?
Foi um tempo de profundo aperto em que me vi no centro de acusações que jamais corresponderam à verdade, submetido ao julgamento do tribunal das redes e a uma experiência de cancelamento que transformou radicalmente a minha vida e a da minha família. Ao mesmo tempo, foi um convite para revisitar a minha história, olhar com honestidade para mim mesmo, reconhecer erros e passar muitas coisas a limpo. Toda crise nos coloca diante de uma escolha: endurecer ou amadurecer. Procurei fazer dela uma oportunidade de aprendizado. Talvez o maior aprendizado tenha sido colocar em prática aquilo que sempre ensinei. É relativamente fácil falar sobre autorresponsabilidade quando tudo está bem. O verdadeiro teste acontece quando somos profundamente desafiados. Foi nesse momento que precisei confiar, de forma muito concreta, naquilo que chamo de justiça divina. Costumo dizer que, muitas vezes, a justiça divina se vale da injustiça humana para realizar os seus mistérios. Isso não significa justificar a injustiça, mas compreender que mesmo as experiências mais difíceis podem se tornar instrumentos de transformação. Nem sempre conseguimos entender, no momento em que os fatos acontecem, por que estamos passando por determinada situação. O que podemos fazer é responder a ela com humildade e disposição para aprender. Essa experiência aprofundou ainda mais a minha compreensão sobre destino e karma. Hoje vejo com ainda mais clareza que o karma não é um sistema de punição, mas um instrumento de evolução da consciência. Quando conseguimos transformar uma dificuldade em aprendizado, deixamos de repetir padrões e começamos a construir um destino diferente.
3. O senhor sempre tratou sexo e espiritualidade como temas compatíveis, contrariando uma visão bastante moralista. Acredita que ainda existe preconceito em relação a líderes espirituais que falam abertamente sobre sexualidade?
Acredito que ainda não compreendemos que tudo na vida é espiritual. A espiritualidade não acontece apenas durante a meditação, uma oração ou um ritual. Ela se manifesta na forma como vivemos, nos relacionamos, trabalhamos, amamos e também na maneira como lidamos com a nossa sexualidade. Enquanto tentamos evoluir negando partes de nós mesmos, incluindo os nossos desejos e impulsos, criamos uma divisão interna que dificulta o próprio processo de transformação. A evolução não acontece pela negação, mas pela integração daquilo que somos. A energia sexual é, sem dúvida, uma das forças que movem a vida. Todos nós chegamos ao mundo por meio desse encontro. O desafio não está na existência da sexualidade, mas na forma como nos relacionamos com ela. Ao longo da história, a sexualidade foi cercada de medo, culpa e repressão. Em muitos contextos religiosos, a solução encontrada foi afastá-la do caminho espiritual. Talvez isso tenha cumprido uma função em determinado momento histórico, mas também trouxe consequências importantes, porque aquilo que é reprimido não desaparece, apenas se manifesta de outras formas. Também não acredito que a resposta seja uma liberdade sem consciência. Muitas vezes, depois de um período de repressão, o pêndulo vai para o extremo oposto. Nem repressão, nem permissividade. O verdadeiro caminho é desenvolver uma relação consciente, responsável e amorosa com essa energia, colocando-a a serviço do despertar da consciência. Essa é uma reflexão que aprofundo no livro Amar e Ser Livre. O sexo pode ser uma poderosa experiência espiritual, desde que deixe de ser apenas um impulso inconsciente e se torne uma expressão de presença, amor e responsabilidade.
4. O senhor costuma dizer que a autorresponsabilidade é a base dos seus ensinamentos. Mas como equilibrar essa ideia com acontecimentos que parecem fugir completamente do nosso controle? Há momentos em que precisamos aceitar o destino em vez de tentar mudá-lo?
Todos nós, em algum momento, nos deparamos com acontecimentos que não escolhemos e que desafiam a nossa capacidade de compreender o que está acontecendo. A visão que proponho neste livro nasce de uma pesquisa e de uma investigação espiritual de muitas décadas sobre a arquitetura da realidade e sobre a forma como a nossa vida é construída. A partir dessa perspectiva, compreendo que a realidade que se apresenta em cada momento é exatamente aquela que precisamos atravessar para continuar o nosso processo de evolução. Somos responsáveis por tudo o que acontece em nossas vidas. Eu não diria que devemos simplesmente aceitar o destino em vez de tentar mudá-lo. O convite é outro: aceitar o karma, ou seja, reconhecer a realidade que estamos vivendo, e, a partir dela, alinhar nossas escolhas ao nosso dharma, ao nosso propósito. É justamente esse alinhamento que nos permite construir um novo destino. O karma representa as consequências das nossas ações passadas, ainda que muitas vezes não consigamos estabelecer uma relação direta entre causa e efeito. Em vez de desperdiçar energia perguntando “por que isso aconteceu comigo?”, podemos fazer uma pergunta muito mais transformadora: “O que esta experiência veio me ensinar?” O karma não é castigo. Karma é uma dívida de aprendizado. Essa mudança de perspectiva transforma completamente a maneira como enfrentamos a vida. Deixamos de nos colocar como vítimas das circunstâncias e passamos a responder aos acontecimentos com mais maturidade, consciência e responsabilidade. É assim que o karma deixa de ser uma prisão e passa a ser um caminho para a liberdade.
5. Como ter esperança no ser humano se ele mesmo destrói tudo que foi lhe dado? Desastres “naturais”, violência, e agora vamos passar por um El Nino, consequência do aquecimento climático…
Assim como existe um karma individual, também existe um karma coletivo. A humanidade também colhe as consequências. O que estamos vivendo hoje no planeta não é um castigo, mas uma consequência natural da forma como temos nos relacionado com a Terra e com a própria vida. Durante muito tempo, agimos como se estivéssemos separados da natureza, quando, na verdade, somos parte dela. Nós somos a natureza. Se adoecemos o planeta, inevitavelmente adoecemos a nós mesmos. As mudanças climáticas, a degradação ambiental, a violência e tantas outras crises revelam que existe algo profundamente desalinhado na maneira como construímos a nossa civilização. Elas nos mostram que precisamos corrigir a rota. No livro Parivartan – A Transformação para uma Nova Consciência, já abordava esse momento histórico como um grande processo de transição. Toda transformação profunda passa por um período de desconstrução. Estruturas antigas deixam de funcionar antes que novas possam surgir. É um processo difícil, mas também cheio de possibilidades. Acredito que o denominador comum por trás de muitas dessas crises é a desconexão do ser humano da sua natureza espiritual. Deixamos de nos perceber como seres espirituais vivendo uma experiência humana e passamos a acreditar que a felicidade depende apenas da conquista de bens materiais, do consumo e da satisfação externa. Essa visão inevitavelmente produz desequilíbrio, tanto dentro de nós quanto na relação com o planeta. Apesar dos desafios, continuo esperançoso. Toda crise contém um chamado para despertar. Se conseguirmos ouvir esse chamado e compreender que somos corresponsáveis pelo mundo que estamos construindo, poderemos transformar esse momento em uma oportunidade de evolução coletiva.
6. O senhor diz que “a inteligência artificial veio para acelerar o nosso despertar espiritual”. Acredita que ainda há tempo? E como usar a IA e as novas tecnologias a favor da nossa espiritualidade?
A IA está acelerando mudanças profundas na sociedade e ela também pode acelerar o nosso despertar espiritual, mas isso depende de como escolhemos utilizá-la. A IA amplia a capacidade de produzir conhecimento, resolver problemas e criar soluções. Mas ela não é boa nem má em si mesma. Como qualquer grande poder, seus efeitos dependem da consciência de quem usa. A humanidade só conseguirá atravessar a era da IA se desenvolver, ao mesmo tempo, inteligência espiritual. Precisamos cultivar discernimento, ética, consciência do propósito e da responsabilidade pelas nossas ações. Sem isso, corremos o risco de criar tecnologias extraordinárias sem saber para onde estamos caminhando. A espiritualidade nos ajuda justamente a responder às perguntas que a tecnologia não consegue responder: para quê? A serviço de quem? Qual é a intenção por trás daquilo que estamos criando? Quando essas respostas são guiadas pelo bem comum, pela compaixão e pelo amor, a tecnologia deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma aliada da evolução humana. Eu tenho dedicado parte do meu trabalho a pesquisar como integrar o conhecimento espiritual a plataformas de IA. Vejo iniciativas promissoras surgindo nessa direção. Acredito que este é um momento importante para que pessoas conscientes ocupem esse espaço e ajudem a orientar o desenvolvimento dessas ferramentas para que estejam a serviço da vida, da expansão da consciência e do benefício coletivo.
7. Vivemos uma época de guerras, polarização, redes sociais, cancelamentos, ansiedade etc. O senhor acredita que estamos vivendo uma crise de valores ou uma etapa necessária da evolução?
As duas coisas ao mesmo tempo: uma profunda crise de valores e uma etapa necessária da evolução. Toda grande transformação passa por um período de instabilidade. Quando uma forma de viver deixa de responder às necessidades da consciência, ela entra em crise antes que uma nova possa nascer. Vejo o momento atual como consequência de um processo que já vem sendo construído há muito tempo. As guerras, a polarização, a ansiedade, os conflitos e a dificuldade de diálogo não surgiram por acaso. Eles revelam o estado de consciência da humanidade e, ao mesmo tempo, nos convidam a transformá-lo. Neste ano, durante a temporada na Índia, compartilhei uma percepção que tenho chamado de uma divisão de frequências. Vejo pessoas cada vez mais sintonizadas com a frequência do medo e outras aprendendo a se alinhar com a frequência da confiança. Essa diferença tende a ficar mais evidente nos próximos anos. O medo alimenta a polarização, o ódio, a necessidade de controlar o outro e a incapacidade de dialogar. A confiança, por outro lado, nos permite agir com lucidez, compaixão e responsabilidade, mesmo em meio às dificuldades. O grande desafio será não permitir que a nossa consciência seja capturada por essa força gravitacional do medo. Todos nós seremos constantemente convidados a reagir, julgar e nos dividir. A prática espiritual, independentemente da tradição, torna-se cada vez mais importante porque nos ajuda a preservar a clareza interior. Tenho esperança de que essa crise seja justamente o impulso para um salto de consciência. Quanto maior a escuridão, maior também a necessidade de luz. E cada pessoa que consegue permanecer consciente, sem alimentar o medo, contribui para transformar o campo coletivo.
8. O senhor disse, no último livro, que se aproximou de políticos para ajudar a praticar a ação na posição que os governantes ocupam e a partir daí, “impactar positivamente a sociedade.” O senhor viu algum resultado depois dessas aproximações?
Sim, acredito que esse diálogo vale a pena. É claro que esse é um caminho delicado. Muitas vezes, as pessoas confundem diálogo com alinhamento político. Mas eu nunca me aproximei de lideranças para defender uma ideologia ou vestir uma bandeira. Sou um mestre espiritual. Quando converso com alguém da esquerda, da direita ou do centro, meu interesse é exatamente o mesmo: procurar tocar o coração daquele ser humano para que ele possa exercer sua função com mais consciência, responsabilidade e compromisso com o bem comum. Esse posicionamento traz riscos e eu sempre soube disso. Ainda assim, acredito que a espiritualidade não deve se limitar a falar apenas para quem pensa igual. Se queremos contribuir para a sociedade, precisamos ser capazes de dialogar. Ao longo desses anos, pude ver reflexos concretos desse trabalho em iniciativas ligadas à preservação das águas, à recuperação de rios, à educação e à ampliação do espaço para temas como o autoconhecimento no ambiente escolar, entre outros projetos. Não atribuo essas iniciativas a mim, mas fico feliz quando percebo que uma conversa ou uma reflexão contribuiu para inspirar boas decisões. Acredito que esse é um dos papéis da espiritualidade. E isso inclui dialogar com pessoas de diferentes visões de mundo, sempre colocando o ser humano acima das divisões ideológicas.
9. O senhor também diz que “ajudar não é carregar o karma do outro” e é preciso soltar a mão para a pessoa caminhar sozinha, senão, muitos acabam se perdendo na dor alheia e sofrendo junto. Quais as suas instruções nesse sentido?
Entendo que a compaixão e o auxílio ao próximo fazem parte da missão do ser humano. É um dos atributos que nos torna humanos. Mas percebo que, antes de estarmos verdadeiramente prontos para ajudar alguém, precisamos aprender o que é ajudar de verdade. Ajudar sem esperar nada em troca e sem sermos tragados pelo karma, pela dor ou pelo sentimento de injustiça que a outra pessoa possa estar vivendo. Este ano, na Sri Prem Baba Academy, a escola em que compartilho esses ensinamentos, conduzi um intensivo chamado A Arte de Ajudar sem se Perder, justamente sobre esse tema. Estamos aqui para aprender essa arte de apoiar o outro em suas dificuldades sem perder o nosso próprio centro. Para que isso seja possível, existem alguns princípios importantes. Um deles é não interferir no karma de alguém sem o seu consentimento, sem que essa pessoa esteja aberta para receber a nossa ajuda. Outro é não querer controlar o caminho que ela vai seguir a partir desse auxílio. Isso simplesmente não está nas nossas mãos. Percebo que muitas pessoas se perdem exatamente nesse ponto. No fundo, ainda esperam alguma coisa em troca. Esperam reconhecimento, um agradecimento, querem se sentir necessárias ou importantes para o outro. E, quando isso não acontece, acabam sofrendo. A verdadeira ajuda é um serviço desinteressado. Você oferece o melhor que pode, dentro das suas possibilidades, com sinceridade e compaixão, e entrega o resultado. Faz a sua parte, sem apego ao desfecho e sem transformar o sofrimento do outro em um peso que você precisa carregar.
10. Se pudesse resumir o livro em uma única pergunta para o leitor responder a si mesmo, qual seria?
Se eu pudesse deixar uma reflexão seria o que estou plantando agora é realmente aquilo que desejo colher no futuro? Essa pergunta nos ajuda a perceber a profunda conexão entre o momento presente e o futuro. Da mesma forma, nos leva a compreender que o presente que estamos vivendo é resultado das sementes que plantamos no passado. Quando essa compreensão se torna viva, a forma de enxergar a vida muda completamente. Nela existe uma chave muito importante, inclusive para encontrar o caminho da verdadeira liberdade. É por meio desse entendimento que começamos a trilhar o caminho da libertação das teias do karma. No fundo, todo caminho espiritual autêntico conduz a isso. Ele nos ajuda a integrar os aprendizados, compreender as experiências que vivemos e, pouco a pouco, nos libertar dos condicionamentos e das amarras kármicas que nos mantêm presos aos mesmos ciclos. Esse, em essência, é o grande propósito da vida: florescer em liberdade.







