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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Rafael Dragaud: O que estamos aplaudindo em Kanye West?

Para quem trabalha com emoção coletiva, ficar só no impacto visual é uma irresponsabilidade profissional de quem nunca estudou Leni Riefenstahl

Por Daniela 8 abr 2026, 19h24 | Atualizado em 9 abr 2026, 10h38
kanye
 (./Divulgação)
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Rafael Dragaud: O que estamos aplaudindo em Kanye West? Priorizar nos meus resultados Google

Começou como tudo começa hoje, mas dessa vez com uma sensação estranhamente familiar: um bombardeio de imagens em tempo real, sucessivas, quase impossíveis de ignorar. Fumaça, luzes cortando o escuro, um corpo no centro da cena como eixo de tudo. Por um instante, a sensação não era apenas de assistir a um show, mas de presenciar algo que se impunha com a lógica de um ataque militar, desses que atualmente atravessam a tela do celular e sequestram a nossa atenção com aura da destruição. No meio disso tudo, a intencionalidade da imagem: no topo do planeta, um homem com opiniões profundamente equivocadas comandava o espetáculo. No meu Instagram, o mais recente show de Ye parecia um acontecimento inevitável, esteticamente potente, magneticamente popular, perigosamente sedutor.

Mas corte não é crítica. Imagem não é análise. Para quem trabalha com entretenimento, com espetáculo, com público, com emoção coletiva, ficar só no impacto visual é uma irresponsabilidade profissional de quem nunca estudou Leni Riefenstahl. NÃO É O MEU CASO.

Fui ver o que disseram os jornais que ainda se dão ao trabalho de escrever depois que a luz apaga. Fui também por que sou anterior à internet, de um tempo em que a gente formava opinião lendo críticas assinadas, mais demoradas, mais responsáveis. Ainda acredito na leitura que não se satisfaz com a superfície.

Na Rolling Stone, Jon Blistein descreveu o show como uma volta baseada na força do catálogo: um artista que ainda mobiliza multidões com precisão, mas cuja apresentação se apoia mais no passado do que em qualquer reinvenção consistente, para além do cenário. Segundo ele, há energia, há entrega, mas também há irregularidade. Anotou falhas técnicas importantes, momentos desconexos, um espetáculo que oscila entre potência e descontrole.

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No Los Angeles Times, Mikael Wood se mostrou menos interessado em julgar o show isoladamente e mais em situá-lo dentro de um contexto cultural e político mais amplo. O ponto não era apenas o que acontecia no palco, mas o fato de que aquilo acontecia apesar, ou talvez por causa, de tudo que cerca Ye hoje. Casa cheia, resposta do público intensa, mas uma pergunta pairando sobre cada música: o que exatamente está sendo consumido ali?

E talvez esse seja o ponto que mais me interessa. Porque o que esses textos revelam não é um consenso, mas justamente um impasse. De um lado, um artista que ainda domina a gramática do pop, que entende imagem e catarse. Do outro, uma figura pública que ultrapassou limites éticos básicos, flertando e defendendo ideias que, em qualquer outro contexto, seriam suficientes para inviabilizar qualquer carreira.

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E, ainda assim, os estádios estão cheios. E isso é o fenômeno que precisamos entender.

Eu trabalho com entretenimento de impacto. Penso palco, plateia, narrativa, mas também ética e propósito. Eu sei o que custa mobilizar gente, emocional e financeiramente. Eu sei o que significa transformar um show em experiência. Então não dá para olhar para isso como mais um escândalo de celebridade. Não é. Existe alguma coisa acontecendo aqui que ainda não está completamente decodificada.

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Porque quando alguém que já defendeu publicamente o nazismo consegue, simultaneamente, lotar estádios com imagens de forte apelo estético, sozinho no topo do planeta, nós estamos diante de uma fratura que não é só moral. Parece também cultural, simbólica e estrutural.

Eu não sei ainda o que isso significa. Mas quero pensar. Não se trata de absolver. Muito menos de cancelar como gesto automático de manada. Quero observar com atenção radical o que o público está comprando quando compra esse show; quero entender o que está sendo separado, ou não, entre obra e autor; e quero perceber que tipo de experiência coletiva está sendo construída ali, nessa zona nebulosa em que fascínio, consumo, espetáculo e suspensão moral parecem se misturar.

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Talvez este seja um daqueles momentos em que o entretenimento deixa de ser só entretenimento e volta a ser aquilo que sempre foi, no fundo: um espelho instável do tempo. E, nesse caso, um espelho que ainda não sabemos exatamente como interpretar. Mas que, definitivamente, não pode ser ignorado.

Rafael Dragaud é roteirista, diretor do show da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, trabalhou na Globo por mais ou menos 30 anos como diretor-executivo do núcleo de variedades da emissora, responsável por programas, como “Conversa com Bial”, “Mais Você”, “Encontro”, “É de Casa” e “Altas Horas”.

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