Rafaella Machado (editora): “A vida offline é o novo luxo”
O objeto retangular de papel impresso parecia estar com os dias contados
O ano era 2006 e eu estava começando minha carreira como editora quando escutei pela primeira vez a frase que me acompanha há 20 anos. Na época, o vilão da vez era o e-book, que traria pro mercado dos livros o baque que a indústria fonográfica viveu com a chegada dos MP3 no começo do milênio e a subsequente evolução dos streamings.
De fato, o objeto retangular de papel impresso parecia estar com os dias contados, a era dos blogs, o começo do YouTube, tudo apontava para um futuro brilhante e tecnológico e a conclusão lógica era de que a palavra impressa simplesmente não parecia caber no imaginário da época.
Eu dava meus primeiros passos em uma indústria que vivia seu provável apocalipse quando a ficção para jovens, com temáticas sobrenaturais, virou febre. Crepúsculo e Diários do Vampiro deram uma guinada no livro, carregando consigo uma geração de fãs que passou a usar a internet, na época o Orkut e Facebook, para falar dessas histórias. O primeiro milagre era que assim como os próprios vampiros, os livros não pareciam morrer mesmo contra todas as adversidades.
O outro milagre era finalmente poder calar a segunda frase mais repetida para editores, que é: “O jovem não lê”. Ali estávamos nós, uma geração inteira de editores de livros para jovens, provando que esse segmento de literatura, posteriormente cunhado de Young Adult, seria o motor por trás das Bienais e festivais literários pelo mundo afora.
Em 2020, veio a pandemia e as redes sociais chegaram com força impondo seus algoritmos viciantes. Os vídeos curtos estavam enchendo o feed das pessoas de dopamina barata e os profetas do apocalipse literário entoaram novamente que o livro acabaria, que os jovens não leriam mais.
Mas o livro, mais uma vez como os vampiros, não é uma criatura fácil de se aniquilar. O BookTok veio, e com ele as comunidades de leitores floresceram. O jovem estava lendo, postando sobre os livros que lia, usando as redes para criar fanfics das histórias que amava, fazendo lives de leitura e mudando para sempre o jeito que essa indústria funcionava. Agora, os tropos que faziam sucesso no algoritmo dos leitores pautavam as linhas editoriais de um dos mercados mais tradicionais que existem. O livro se reinventava, resistia contra todas as apostas.
Segundo uma pesquisa coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData, a venda de livros cresceu 7,7%, com expansão de 6,5% no volume de exemplares comercializados em 2025. Descontando a inflação, é um crescimento de 3,3%.
A pergunta que vem à mente é como, em tempos de inteligência artificial, jornadas de trabalho cada vez mais longas, feeds intermináveis de vídeos curtos que estragam a atenção das pessoas, o livro consegue se reinventar novamente? É curioso pensar que talvez, justamente por conta de todos esses fatores, dada a hiperconectividade que vivemos, a facilidade com que somos induzidos a consumir mais e sempre, o livro seja a última mídia em que o leitor não é interrompido por anúncios.
É possível que a resposta esteja na neurociência. Pesquisas recentes revelam que a leitura ativa as mesmas redes neurais e sensoriais ao ler uma história e ao vivenciar a experiência na vida real. O mesmo não ocorre quando assistimos a um filme ou a uma série. A leitura te obriga a imaginar um acontecimento, te coloca na cabeça daquele protagonista, o que a torna uma das principais ferramentas para construção de empatia.
Quem sabe a resposta esteja também em uma fadiga digital que acertou em cheio a juventude. Cercado de opções sem fim de conteúdo para consumir e a pressão por postar e performar esse consumo, o jovem decidiu que a vida offline é o novo luxo. Em tempos de IAs que podem fazer um roteiro de viagem perfeito, a moda agora é contratar agentes de viagem personalizados, que vão te indicar cafés desconhecidos, exposições fora do hype e restaurantes autênticos. Em tempos de filtros de Instagram, a polaroid voltou para as mochilas das pessoas que querem registrar o “aqui e agora” e ter uma recordação palpável para guardar ou colocar na geladeira.
Em plena supremacia dos streamings de música, o vinil e até o CD voltaram a figurar na vida das pessoas que sentem falta de possuir a música que amam, segurar o folheto com as letras das canções, escutar do começo ao fim um álbum inteiro, em vez de uma playlist aleatória.
É como se tudo que é físico no mundo digital ganhasse uma aura de autenticidade. A revista Capricho fez seu comeback para o impresso, ao mesmo tempo em que as aulas presenciais de cerâmica e bordado viraram as queridinhas de uma geração inteira com burnout das redes.
O mercado editorial se revolucionou com o audiolivro, com o e-book, se reinventou de mil maneiras, mas o livro físico, com suas capas colecionáveis, edições bonitas e ilustradas, com as marcas de leitura na lombada, páginas marcadas por fotos e frases rabiscadas e sublinhadas no miolo ainda segue sendo esse objeto insubstituível e tão imortal quanto as histórias neles impressas.
Rafaella Machado é editora executiva da Galera Record e da Verus Editora, dois selos do Grupo Record, um dos maiores do Brasil. Sua atuação abrange estratégia editorial, aquisição de direitos autorais, marketing e comunicação digital, sempre com forte pegada em inovação. É apaixonada por livros, viciada em café e “mãe” de gatos.







