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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Teatro (Claudia Chaves): “Personagens profundamente complexos”, diz Thelmo

Portella transforma o texto em uma espécie de declaração apaixonada sobre o próprio teatro

Por Daniela 8 Maio 2026, 09h00 | Atualizado em 9 Maio 2026, 16h40
Thelmo Fernandes, Karine Telles, Karine Telles, Anna Sophia Folch e Angelo Paes Leme
Thelmo Fernandes, Karine Telles, Karine Telles, Anna Sophia Folch e Angelo Paes Leme  (Alê Catan/Divulgação)
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Teatro (Claudia Chaves): “Personagens profundamente complexos”, diz Thelmo Priorizar nos meus resultados Google

Quando se abrem as cortinas de O Deus da Carnificina, da dramaturga francesa Yasmina Reza, e vemos os atores trajando os figurinos de século XIX criados pela talentosa Karen Brusttolin, enquanto falam ao celular e utilizam códigos absolutamente contemporâneos, entendemos imediatamente que a aparente contradição faz parte da sofisticada carpintaria cênica concebida por Rodrigo Portella. E é justamente aí que reside a beleza maior do espetáculo: uma declaração apaixonada sobre o próprio teatro.

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Thelmo Fernandes e Karine Telles (Alê Catan/Divulgação)

Portella parece afirmar que teatro é ação viva, pulsante, feita por pessoas de carne e osso em um palco, falando como seres humanos reais falam — independentemente do tempo histórico sugerido pelos figurinos. Em O Deus da Carnificina, essa operação ganha ainda mais força porque a encenação trabalha em permanente estado de sincronia e ruptura.

Os quatro personagens expõem contradições profundas sobre casamento, trabalho, parentalidade e, sobretudo, sobre a necessidade contemporânea de justificar e racionalizar tudo, inclusive um ato violento cometido por crianças dentro da escola. A peça escancara um mundo em que até a barbárie precisa ser compreendida, contextualizada e relativizada.

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Thelmo Fernandes e Karine Telles (Alê Catan/Divulgação)
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De um lado está Michel Vallon, o capitalista vivido com enorme vigor e precisão por Thelmo Fernandes. Seu personagem, pragmático e brutalmente funcional, cria um contraste delicioso com a perplexidade sofisticada de Véronique Vallon, interpretada por Karine Teles, cuja atuação acentua o espanto de alguém ligada ao universo da arte, mas casada com um homem interessado apenas na lógica prática das coisas.

No outro casal, Alain Reille, interpretado por Angelo Paes Leme, surge como um homem típico da contemporaneidade: alguém para quem os princípios morais se adaptam às conveniências do momento. Ao seu lado, de Ana Reille,  personagem de Anna Sophia Folch, aparece mergulhada em discursos humanistas e pequenas obsessões intelectuais que revelam, pouco a pouco, um profundo vazio existencial.

Karine Telles, Thelmo Fernandes, Anna Sophia Folch e Angelo Paes Leme
Karine Telles e Anna Sophia Folch (Alê Catan/Divulgação)
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Conforme os personagens avançam no confronto e literalmente vão retirando partes das roupas, aproximam-se também daquilo que realmente são: pessoas comuns, entediadas, aprisionadas em vidas sem grande significado e que transformam trivialidades em dramas fundamentais.

Mas a grande chave do espetáculo está no conjunto da obra. Rodrigo Portella apresenta sua visão de teatro como um espaço onde tempos, signos e sentidos podem coexistir livremente. E isso só funciona porque o diretor conta com um quarteto de atores extraordinariamente afinado, capaz de alcançar o difícil equilíbrio entre humor cortante e desconforto existencial.

Anna Sophia Folch

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O riso surge, mas nunca explode em gargalhada fácil. Ele vem impregnado de incômodo. E é justamente esse humor ácido que faz compreender como o mundo contemporâneo, entre civilidade aparente e violência latente, pode ser profundamente insuportável.

Thelmo Fernandes é um ator incrível que se transforma a cada papel, no qual deixa a marca do inesquecível. Conversamos sobre o espetáculo, sua participação em Arcanjo Renegado e planos para  o futuro.

1 – Qual foi a sensação de trabalhar com Rodrigo Portella?

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Eu já namorava a possibilidade de trabalhar com o Rodrigo há muito tempo. Sou muito fã dele, vi quase todos os espetáculos e fiquei completamente louco com “O Motociclista”. Quando surgiu o convite, pensei: vai ser incrível. E toda a expectativa se concretizou. O Rodrigo é um diretor muito afetuoso, inteligente e parceiro dos atores. Foi um dos processos mais incríveis que já vivi. Ele realmente superou todas as minhas expectativas, e espero repetir essa parceria outras vezes.

2 – Como você percebeu os figurinos de época dentro de uma peça tão contemporânea?

Mesmo com o figurino de época, mantivemos a contemporaneidade na interpretação, no texto e na linguagem. Na verdade, o figurino serve para mostrar que essa tendência do ser humano à barbárie vem de longa data, desde a nossa colonização. Foi uma ideia que o Rodrigo teve já no final do processo, mas à qual nos adaptamos super bem. Acho que fechou com chave de ouro o que estávamos propondo.

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3 – Como é transitar entre drama e humor na mesma peça?

Adoro personagens que me permitem trafegar entre humor, tragédia, densidade e ambiguidade. “O Deus da Carnificina” oferece isso a todo o elenco. É um trabalho muito gratificante porque me permite explorar as contradições humanas, algo que sempre busco em qualquer personagem, seja no teatro, cinema ou TV. Não acredito em personagens inteiramente bons ou maus, e o texto da Yasmina Reza nos permite mergulhar profundamente nessas complexidades.

4 – Para você, quem é o Bispo Cristóvão, de “Arcanjo Renegado”?

“Arcanjo Renegado” é uma grande série porque dialoga diretamente com a realidade do Rio e do Brasil. O Bispo Cristóvão é um personagem cheio de camadas: acredita ser um escolhido de Deus, mas está envolvido com política e crime organizado. Isso cria uma identificação muito forte com o público. O frescor do personagem se mantém porque, a cada nova temporada, ele surge mais provocante, surpreendente e instigante para mim como ator.

5 – E os projetos para o futuro?

Quero continuar fazendo grandes personagens e manter minha independência de escolha na carreira. Sou muito grato por poder escolher o que realmente quero fazer. Tenho muita vontade de voltar com os espetáculos ‘Diário do Farol’ e ‘Dignidade’, que foram trabalhos muito especiais para mim. E seguir trabalhando bastante: ‘Arcanjo Renegado’ já vai para a quinta temporada, com a sexta a caminho, além de novos filmes que em breve entram em circuito. Quero continuar exercitando a arte e fazendo bons trabalhos.

Serviço:
Teatro Adolpho Bloch
Rua do Russel, 804 – Glória
Quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 17h.

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)
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