Viajar de trem na Suíça é uma experiência além do transporte
Celebrando uma década, a Grand Train Tour of Switzerland modificou o jeito do turista encarar a viagem
Há uma ironia deliciosa em pedir ao viajante que desacelere justamente no país que transformou a pontualidade em traço de personalidade. Na Suíça, o trem das 9h07 parte às 9h07. Pois é graças a essa máquina de precisão que há dez anos o Circuito ferroviário Grand Train Tour of Switzerland propõe ao turista sentar, olhar pela janela e, acreditem, se perder no tempo durante a viagem.
A empresa oferece mais que locomotivas. É um roteiro inteligente que costura oito linhas panorâmicas numa rota circular de 1.280 quilômetros, ignorando solenemente a necessidade de baldeações estressantes enquanto cruza cinco Patrimônios Mundiais da Unesco. Na prática, é o único lugar da Europa onde o passageiro troca de idioma, de arquitetura, de cardápio e de clima sem precisar trocar de passaporte — e, em alguns trechos, sem sequer levantar da poltrona.
Quando a ideia surgiu, o turista ganhava seis opções de trajeto prontas. Hoje, são onze. A mudança reflete o cansaço do viajante moderno com a ditadura do roteiro engessado. “O que aprendemos nesses dez anos é que não existe uma única forma de descobrir a Suíça de trem”, explica Ruben Monteiro, gerente de mercado da Grand Train Tour of Switzerland.
O roteiro deixou de ser uma volta completa a cumprir, como quem risca itens de uma lista, e passou a funcionar como um mapa de possibilidades. “Hoje, o Grand Train Tour serve principalmente como inspiração e orientação para criar roteiros incríveis de trem, mantendo sempre a liberdade de adaptar a viagem às preferências de cada pessoa”, completa o executivo.
Nenhum trem resume melhor a proposta do que o Glacier Express. Entre Zermatt e St. Moritz são cerca de oito horas, 91 túneis, 291 pontes e um ponto culminante de 2.033 metros no Passo de Oberalp. A composição ostenta, sem constrangimento algum, o título de expresso mais lento do mundo, o que, num setor obcecado por encurtar distâncias, soa quase como uma provocação.
“Talvez o luxo hoje não seja chegar o mais rápido possível, mas ter tempo para aproveitar o caminho”, afirma Monteiro. Para ele, as oito horas de percurso não são o preço cobrado pela chegada, mas a própria experiência. “Ninguém embarca no Glacier Express simplesmente para chegar mais rápido a St. Moritz. A pessoa embarca porque quer viver aquelas horas, observar a paisagem, desacelerar e aproveitar o percurso”, completa.
Durante décadas, o turismo de alto padrão se dedicou a eliminar esperas e converter horas em minutos. A Suíça, com a serenidade de quem fabrica relógios há séculos, encontrou a manobra inversa: vender o tempo como artigo de luxo. E, a julgar pela procura, o cliente está satisfeito.
A transição de cenários pela janela são o argumento mais persuasivo. Pela manhã, encara-se o gelo cortante do Matterhorn. À tarde, atravessam-se os idílicos terraços de vinhedos em Lavaux. Mais ao sul, o Ticino entrega a atmosfera de Lugano e Morcote, onde a austeridade local adquire sotaque italiano e vocação para o ócio à beira do lago.
No Bernina Express, que desce rumo à Itália, a engenharia participa do espetáculo. O Viaduto Circular de Brusio, de 1908, faz o trem completar uma volta inteira sobre si mesmo para vencer o desnível do terreno. São nove arcos de pedra resolvendo com elegância o que muita obra contemporânea resolveria com dinamite. Já na região de Montreux, vagões Belle Époque entregam o romantismo em painéis de madeira entalhada, resgatando a aura das viagens antigamente, com a discreta vantagem das comodidades de hoje.
O público brasileiro, claro, já descobriu o percurso. No primeiro semestre de 2026, as pernoites de brasileiros na Suíça saltaram 7,7%. O problema é a falta de imaginação: a imensa maioria continua orbitando o triângulo óbvio de Zurique, St. Moritz e Genebra. Monteiro vê nesse comportamento menos uma limitação e mais uma brecha para mudar a dinâmica da viagem:
“O brasileiro já conhece muito bem destinos como Lucerna, Interlaken e Montreux. O que talvez ainda não conheça tanto é que o próprio trajeto entre eles pode ser uma das grandes experiências da viagem”, sugerindo a dobradinha entre o Luzern Interlaken Express e o GoldenPass Express.
Para a década seguinte, Monteiro aposta em mudanças mais no planejamento do que nos trilhos. “Acredito que veremos ainda mais personalização, ferramentas digitais para facilitar o planejamento, alternativas para diferentes épocas do ano e novas formas de distribuir os visitantes por diferentes regiões da Suíça”, diz.
O que não deve mudar, segundo ele, é o princípio que sustenta o produto desde o lançamento. Lembrando que o trem não deve ser visto apenas como uma maneira de chegar ao destino, mas que o caminho também faz parte da viagem.
Matéria escrita por Thiago Machado






