Vila Oyá: sonho de cariocas que virou excelência na Península de Maraú
Hotel Boutique tem estrutura, serviços e gastronomia dignos dos melhores do país
Muito morador de grande metrópole tem um plano de fuga. A executiva de marketing Lívia La-Gatta e o advogado André Reis, trocaram o asfalto do Rio de Janeiro pelas ruelas de terra de um pedaço de Brasil que teima em não ter pressa: a Praia de Algodões, na Península de Maraú, no sul da Bahia. Para completar, transformaram a ideia de residência em um hotel boutique de excelência.
O casal já frequentava a região, havia se apaixonado pela beleza rústica de uma faixa de areia quase deserta, emoldurada por coqueirais e piscinas naturais mornas, e decidiu que era ali que o filho pequeno deveria crescer. Mas, como costuma acontecer com quem gosta muito de receber, a casa ficou pequena para a vocação hospitaleira dos dois. O resultado dessa guinada se tornou o Vila Oyá.
É um hotel pequeno no melhor sentido da palavra. Íntimo sem ser modesto, sofisticado sem deixar o clima pé no chão. São apenas quatro acomodações — duas suítes de cerca de 40 metros quadrados e dois bangalôs de 90, estes com cozinha (todas com piscina privativa) – distribuídas em volta de uma praça interna ajardinada, como numa vila do interior onde todo mundo se cumprimenta pelo nome. Daí o “vila”.
O projeto reinterpreta as casas de pescador do litoral e as de roça do interior baiano: paredes grossas que deixam o calor do lado de fora, quase nada de vidro, linhas propositalmente imperfeitas e portas e janelas de madeira garimpadas em demolições de fazendas da região. A decoração, assinada pela própria Lívia, reúne cerâmicas de Maragogipinho, no Recôncavo — maior polo de cerâmica artesanal da América Latina —, peças de artesãos locais, imagens e livros sobre a cultura baiana. Nenhum objeto está ali apenas disposto, todos contam alguma coisa.
Não há garrafa plástica, canudo descartável ou saquinhos nas lixeiras do banheiro, e as amenities privilegiam fórmulas de menor impacto — decisões tomadas na prática, sem o cansativo discurso da sustentabilidade de stories. O dinheiro do hóspede fica na comunidade: na equipe, nos pescadores, nos artesãos. Há yoga, massagens, aulas de surfe e passeios de barco, mas a opção mais sofisticada continua sendo não fazer absolutamente nada. O luxo ali é o espaço, o silêncio e aquilo que não está sendo exibido. Uma ideia que combina perfeitamente com Maraú.
Para completar é preciso falar da gastronomia. Hotéis pequenos costumam resolver a comida com uma tábua de frios honesta e uma moqueca para os dias de festa. A Vila Oyá decidiu fazer o contrário. Em vez de importar a gastronomia dos grandes centros em caixas de isopor aposta na cozinha de território, comandada pelo talentoso chef Xairon Misaki. Peixe do dia vindo de pescadores da comunidade, legumes de pequenos produtores do entorno, aratu catado no mangue da Baía de Camamu por marisqueiras da região. O resultado é técnico sem ser exibido — coisa rara em hotel deste tamanho —, provando que a altíssima gastronomia não precisa de afetação quando o produto é tratado com respeito.
O café da manhã, servido à mesa, é um manifesto contra o bufê de hotel — nada daquela instalação farta em que o hóspede atravessa 47 travessas e um croissant ressecado para chegar a lugar nenhum. Ali, a refeição começa com um shot fresco e segue em pequenas etapas que incluem frutas colhidas no dia, tapioca saindo da cozinha, ovos no ponto exato, bolo morno e sucos prensados na hora, como o de caju com mel de cacau. É o tipo de café que transforma a premissa “vou só comer alguma coisa” em uma hora e meia de vida gloriosamente aproveitada.
Chegar a esse refúgio exige algum desprendimento. A partir do aeroporto de Ilhéus, são cerca de 75 quilômetros num percurso que inclui asfalto e um bom trecho de terra batida – algo como duas horas e quinze de viagem, com transfer organizado pela equipe. A dificuldade, nesse caso, funciona como um serviço de segurança natural. Quanto mais longe dos caminhos óbvios, menores as chances de encontrar alguém vendendo pressa.
Ultrapassada a estrada, a recompensa é absoluta: uma área de proteção ambiental com faixa de areia a perder de vista e mar morno. O cenário traduz o que o mercado convencionou chamar de quiet luxury, ou luxo silencioso. Mas na Vila Oyá, o conceito ganhou tradução própria. A arquitetura não briga com a paisagem e a ausência de maçanetas douradas é um alívio.
E, convenhamos, há o nome. Na mitologia africana, Oyá — ou Iansã — é a entidade dos ventos, das tempestades e das grandes transformações. Não poderia haver um batismo mais exato. Largar uma carreira consolidada na zona sul carioca, empacotar a vida e se mudar para um vilarejo pacato exige exatamente isso: a força de uma ventania interna capaz de virar a direção das coisas e não dar meia-volta no primeiro temporal. O vento deles mudou e, de quebra, eles decidiram mudar o ritmo também de quem cruza a porta do hotel.
O Vila Oyá não parece um hotel que tentou reproduzir uma casa. É uma residência que cresceu até descobrir que poderia receber hóspedes. Ainda tem trilha sonora, quase toda calcada em Novos Baianos, Gil, Caetano e Bethânia, que completa o charme.
O casal carioca que olhou para Algodões, enxergou um lugar para morar e depois percebeu que poderia dividir aquela escolha talvez ainda não dimensione o que criou. Oyá, afinal, é vento — e vento ninguém vê. Só se sente!
Thiago Machado e Otavio Furtado viajaram a convite do Vila Oyá






