Sofro de GDS, mas calma, é coisa boa. É sonhar com sabores
Com o tempo, percebi que esses sonhos tinham algo especial. A chamada Gustatory Dream Sensation.
Trabalho em tempo integral com vinhos há mais de 30 anos. Leio, escrevo, falo e penso sobre esse líquido ancestral sem pausa. Além, é claro, de ir às vias de fato — degustando milhares de rótulos por ano, profissionalmente. E no meu tempo livre? Bebo vinho com os amigos. E nas férias, alguém adivinha? Só digo que o saca-rolhas e a taça estão sempre na mala.
Costumo dizer que o vinho é uma espécie de oxigênio que respiro pela boca. Minha relação com o néctar transcende a consciência, invadindo até os sonhos. Muitos deles já viraram contos nos meus livros.
Em um deles, após degustar um Romanée-Conti 1978 na vida real — um daqueles vinhos irrepetíveis — sonhei que ele estava em toda parte. Ao abrir a torneira do chuveiro, da pia, para lavar a louça ou escovar os dentes, só saía aquele vinho. A princípio, uma bênção. Depois, uma maldição.
Outro sonho que foi parar em um dos meus livros envolvia comida — e não vinho — e aconteceu quando eu morava na Itália. Eu adorava a tríade: tomate pelado, basílico e muçarela de búfala. Uma noite, sonhei com um imenso campo verde de manjericão e, sobre ele, passava um daqueles pequenos aviões que borrifam fertilizantes sobre plantações. Só que, neste caso, do avião jorrava molho de tomate. Um verdadeiro delírio gastronômico. Um sonho!
Com o tempo, percebi que esses sonhos tinham algo especial. A chamada Gustatory Dream Sensation (GDS) é a capacidade de experimentar sabores e aromas durante o sono. Segundo estudos da Universidade de Montreal (Canadá, 1998) e da Binghamton University (EUA, 2023), entre 0,7% e 2,6% dos sonhos incluem sensações de paladar ou olfato — e profissionais como sommeliers, chefs e perfumistas são mais propensos a vivenciar esse fenômeno.
O vinho, aliás, nos faz sonhar também de olhos abertos. Como um foguete ou uma cápsula do tempo, ele nos transporta a outro lugar, outra época. Traz à tona uma memória adormecida ou nos leva, simbolicamente, a destinos onde talvez nunca tenhamos estado — mas, graças a ele, passamos a habitar.
Talvez esteja aí a verdadeira magia do vinho: ele alimenta alma. Não se limita ao paladar — evoca lembranças, inspira ideias, desperta desejos. Um aroma pode nos levar de volta à infância; uma textura, a uma paixão esquecida. O vinho fala conosco num idioma sensorial, sussurrado, como um sonho que se saboreia acordado. Proust precisava de uma madeleine mergulhada no chá para viajar no tempo. Eu preciso de uma taça.
Volta e meia me pego, taça na mão, olhos vagando, tentando entender: é o vinho que está sublime ou sou eu que hoje estou mais tocado? Porque vinho bom é aquele que nos atravessa. Não tem gosto só de uva — tem gosto de gente, de paisagem, de história. Tem gosto de memória.
Sonhar com vinho, no fundo, é sonhar com beleza. E isso, em tempos tão racionais, é quase um ato de resistência. Que bom que, às vezes, ainda podemos fechar os olhos e, dormindo ou acordados, brindar com os deuses.





