Vinho não é só jazz ou clássico, também pede Rock’n’Roll
A taça levanta. A guitarra distorce. O vinho começa. E o palco é seu.
Nem só de silêncio contemplativo vivem os amantes do vinho. Para além dos aromas de frutas maduras e da elegância dos taninos, há vinhos que parecem nascer em meio a riffs de guitarra, vocais rasgados e uma bateria pulsante. Será que podemos chamá-los de vinhos com pegada rock’n’roll? Rótulos que esbanjam atitude, intensidade e uma dose generosa de rebeldia.
Mas o que faria um vinho ser “rock’n’roll”? Não é só colocar uma caveira ou uma guitarra no rótulo. É sobre personalidade. É sobre vinhos que não pedem licença, que chegam marcando território. Pode ser um tinto encorpado que soa como um solo de Jimmy Page, um espumante anárquico como uma faixa dos Ramones, ou até um branco insinuante, digno de uma canção da Rita Lee. O espírito rock está na ousadia da vinificação, na ruptura com padrões, no caráter autoral.
Algumas castas parecem nascer para isso. A Primitivo, por exemplo — também conhecida como Zinfandel nos Estados Unidos — é puro rock: intensa, alcoólica, cheia de fruta escura, pimenta e drama. Não é à toa que a banda Kiss lançou um Zinfandel com sua marca. Outras castas que entram bem nessa playlist sensorial: Syrah (potente como um riff do Black Sabbath), Nebbiolo (complexo como um álbum do Pink Floyd), e Garnacha (quente e vibrante como o Queen ao vivo no Wembley).
Aliás, não faltam bandas e artistas que levaram essa paixão às garrafas e lançaram seus próprios vinhos ou licenciaram suas marcas. Exemplos incluem o “Rolling Stones Forty Licks Merlot”, o “AC/DC Highway to Hell Cabernet Sauvignon”, o “Kiss Zin Fire Zinfandel”, o “Iron Maiden Eddie’s Evil Brew”, e até o “The Dark Side of the Moon Cabernet Sauvignon”, licenciado em homenagem ao Pink Floyd. Há também músicos que foram além do marketing: Sting cultiva vinhedos biodinâmicos na Toscana e assina vinhos como Sister Moon; Jon Bon Jovi criou o rosé Hampton Water; e Maynard James Keenan, vocalista do Tool, é enólogo ativo na Caduceus Cellars, no Arizona. São vinhos com identidade, feitos por quem vive e respira música — e agora também fermentação.
Bandas clássicas inspiram vinhos clássicos: os Stones e seus riffs sujos podem ecoar em um tinto espanhol selvagem; Led Zeppelin pede um Bordeaux com peso e estrutura; The Who seria um Chianti explosivo; David Bowie merece algo andrógino, mutante — talvez um Orange Wine; e o Velvet Underground… algo minimalista, cerebral, talvez um Pinot Noir cru e honesto.
A harmonização também entra na dança. Esqueça os jantares de gala: esses vinhos pedem hambúrguer, pizza, churrasco — ou mesmo uma noite solitária com um vinil rodando. São vinhos que combinam mais com um bar em Berlim do que com um salão francês. Não é sobre o que você deve beber, mas o que te move.
Porque, no fim, o vinho rock’n’roll é isso: atitude. É para quem escolhe seus rótulos como escolhe sua trilha sonora — pelo impacto, pela emoção, pela memória que vai deixar. Em vez de buscar a perfeição, esses vinhos querem causar. Provocar. Vibrar.
A taça levanta. A guitarra distorce. O vinho começa. E o palco é seu.





