Rock in Rio 2017: “Quero acabar com preconceitos ridículos”

Zé Ricardo, curador e diretor do Palco Sunset, planeja shows com Sting e Santanna para a próxima edição do festival

Por Renata Magalhães 23 set 2017, 22h03 | Atualizado em 3 jul 2026, 17h20
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 (Divulgação/Veja Rio)
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Músico, compositor e agitador cultural: desde 2008, Zé Ricardo é responsável pela curadoria do Palco Sunset do Rock in Rio. Sob sua direção, o palco alternativo se tornou um fator de peso para a escolha do público ao trazer encontros entre grandes nomes da música brasileira e até mesmo artistas internacionais. Prova disso foi o sucesso do show realizado por Ney Matogrosso e Nação Zumbi na noite de sexta (22). Em entrevista exclusiva para a VEJA RIO, Zé falou sobre a criação do espaço, lembrou de histórias curiosas envolvendo artistas e ainda revelou quais artistas pretende trazer nas próximas edições.

Como foi a criação do Palco Sunset?

Estava em São Paulo fazendo um show, em 2007, quando recebi um telefonema que mudou minha vida. Era a Roberta Medina me convidando para criar um novo conceito para o palco Hot Stage, do Rock in Rio Lisboa 2008. Fui para lá com o coração apertado e muita ansiedade. Logo de cara, o primeiro desafio: o sol só baixava depois das nove horas e, por causa disso, nenhum artista grande queria participar. Sugeri que mudássemos o nome do espaço e ela ficou receosa porque tinha sido uma criação do pai dela [Roberto Medina, idealizador do festival], que acabou acatando a ideia deste maluco. Isso norteou o nosso objetivo, que era transformar a ideia de tocar no pôr-do-sol em algo totalmente cool. Assim surgiu o Palco Sunset, que foi implementado em Madrid (2010) e no Brasil (2011).

O que norteia a escolha da programação?
É muito intuitivo. Tento apresentar um panorama do palco. Crio um conceito amplo do que quero apresentar e, a partir daí, monto a programação. Meu objetivo não é o inusitado, isso é uma consequência. O lado pessoal é muito importante; pesquiso sobre o artista, veja a trajetória, procuro entender o perfil daquela pessoa. Meu gosto influencia na hora de determinar a linha de qualidade de acordo com o palco: quero boas letras, bons arranjos e músicos afinados. Mas não trago só o que está no meu Spotify, tento ser democrático.

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Qual o seu objetivo com o Palco Sunset?
Não quero que as pessoas vejam shows, quero que elas se sintam provocadas e pensem coisas diferentes. Foi o que aconteceu no show que reuniu o Johnny Hooker com a Liniker no último domingo, por exemplo. Depois da apresentação, muitas pessoas vieram me cumprimentar chorando muito, emocionadas de verdade com o que aconteceu ali em cima. Quero causar uma catarse social e acabar com preconceitos ridículos. Procuro diálogos humanos nestes encontros, muito além de uma simples compatibilidade musical. E qual a apresentação melhor traduziu esse espírito? Esse palco foi criado para quebrar paradigmas. Essa primeira ruptura aconteceu com o show que reuniu Sepultura e Zé Ramalho. Quando foi anunciado, as pessoas desconfiaram se daria certo, mas eu banquei até o fim. Até que chegou o dia. Na hora de anunciar a atração, um mar de pessoas me olhava em um silêncio ensurdecedor. Foi quando me questionei se aquilo daria certo. Começaram a gritar “Sepultura!” de um lado e “Zé Ramalho!” do outro. Fiquei apavorado, suando frio. Até que começaram a berrar “Zépultura!” e entendi que daria certo. De fato, foi a apresentação mais emblemática.

Quais as histórias mais curiosas envolvendo artistas?

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Alcione, com toda a razão, não queria ensaiar antes do show em 2015. Expliquei para ela que os ensaios eram necessários para a banda que a acompanharia e não para ela. Em Lisboa, um cantor desistiu de entrar no palco logo antes da apresentação dele, que estava lotada. Fui até o camarim sem saber o que falar, sentei ao lado dele, ficamos em silêncio até que eu disse “Vamos lá tocar?” e ele levantou e foi para o palco. Zé Ramalho não queria dar entrevistas depois do show e eu disse que essa era a forma de divulgarmos o trabalho dele para quem não pôde vir ao festival. Hoje mesmo um dos artistas reclamou comigo que teve pouco tempo de passagem de som e eu mostrei para ele que, na verdade, ele tinha tido mais do que todos os outros convidados. O meu trabalho é musical, mas também é humano. Tento mudar o foco dos problemas.

E a situação mais bizarra que você vivenciou?
Em 2011, tivemos um problema com os carregadores que ficam trazendo as caixas com aparelhagem para o palco. Tivemos que trazer funcionários de São Paulo e, durante três dias, tirei minha credencial e eu mesmo me encarreguei dessa função. Depois de me ver fazendo isso, um dos rapazes brigou comigo quando me viu conversando com um produtor. “Isso não é hora de ficar de papinho, vamos trabalhar”, ele gritou. Ele que estava certo. Depois que descobriu quem eu era, disse que eu não tinha cara de diretor (risos)!

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Quais os seus planos para as próximas edições?
Queria muito ter o Sting e o Santana, além de repetir a mistura com dança que rolou este ano. E quero continuar correndo riscos. Se você não corre riscos, não consegue fazer nada transformador.

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