Presente na obra de Gilberto Gil, Rio recebe última grande turnê do artista

O show promove um passeio pela carreira desse gigante da MPB, que rendeu inesquecível homenagem à cidade em Aquele Abraço

Por Kamille Viola
Atualizado em 21 mar 2025, 09h45 - Publicado em 21 mar 2025, 06h06
Gilberto Gil
Gilberto Gil: cantor se despede das grandes turnês com o show Tempo Rei (Giovanni Bianco/Divulgação)
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Aos 82 anos, Gilberto Gil planeja desacelerar. Mas esclarece: essa não é exatamente uma despedida dos palcos, e sim das giras “grandes, extensas, intensas”. “Eu pretendo continuar cantando, tocando, compondo eventualmente. Mas essas excursões exaustivas eu não quero mais, não”, disse Gil, que deu início à turnê Tempo Rei em Salvador e aterrissa em pistas cariocas nos dias 29 e 30 de março, na Marina da Glória, já com ingressos esgotados. Embalada por imagens de época e um repertório só de sucessos, a apresentação ganhou duas datas extras, em 5 e 6 de abril na Farmasi Arena, na Barra, e vai rodar outras oito cidades brasileiras, antes de voar para os Estados Unidos e a Europa.

Como tem sido nos últimos tempos, diversos integrantes da família estarão em cena, entre eles os filhos Bem (guitarra) e José (bateria), e os netos João (baixo) e Flor (voz). Será uma espécie de retrospectiva da carreira do artista baiano, que passou a maior parte de suas mais de seis décadas de trajetória no Rio de Janeiro — cidade homenageada em uma de suas canções de maior sucesso, Aquele Abraço, que, é claro, integra o repertório da despedida.

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Foi em 1966 que Gil desembarcou no Rio com a primeira esposa, Belina Aguiar, e aqui se estabeleceu e tocou a vida. A segunda filha do casal, Marília, já veio ao mundo com o passaporte da Cidade Maravilhosa. Aí o casal se separou e Gil começou a namorar Nana Caymmi, com quem ficou por mais de um ano. Em 1968, ele e Caetano foram presos em meio à ditadura, em São Paulo, e transferidos para cá. Justamente desse período de reclusão veio a inspiração para Aquele Abraço — a expressão vinha do bordão de um programa humorístico, mas Gil nem sabia, já que na prisão não havia televisão.

“Era assim que os soldados me saudavam no quartel”, conta no livro Todas as Letras (Companhia das Letras). Ele relata que reencontrar o Rio na manhã em que foi libertado e rever a Avenida Presidente Vargas ainda enfeitada para o Carnaval foi o pano de fundo da canção. “Na minha cabeça, Aquele Abraço se passa numa Quarta-Feira de Cinzas. É quando, para mim, o filme da música é mentalmente locado”, conta.

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Produtor da música, Manoel Barenbein fez a gravação na véspera da ida de Gil e Caetano para o exílio, em Londres, sob muita emoção. Na volta, em 1972, Gil se fixou novamente na cidade (vive atualmente no emblemático Edifício Chopin, na orla de Copacabana), embora nunca tenha deixado de frequentar Salvador, onde mantém uma casa.

“Nessa época, eles ficaram no eixo Rio-­São Paulo, mas o Rio tinha uma coisa diferente. Um carisma, uma atmosfera, você respirava música, arte. Acho que o Gil encontrou o ambiente para ele aqui”, diz Barenbein. O fato de Salvador e Rio serem ambas centros urbanos de grande presença negra também aproximou Gil da capital fluminense. “É uma aderência grande à paisagem natural e à humana do Rio”, analisa Flora Gil, esposa do artista há 43 anos e empresária dele. “Sabe aquele orgulho de ser baiano no Rio? É isso.”

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arte Gilberto Gil

A cidade também está presente na obra de Gil em outras canções —, também presentes no show —, em que ela aparece sob diferentes ângulos, como Refavela, do disco homônimo, de 1977. A letra cita as remoções das comunidades na década de 1970 — “A refavela revela o salto / Que o preto pobre tenta dar / Quando se arranca do seu barraco / Prum bloco do BNH”.

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Gil teve o estalo criativo durante uma ida a um festival em Lagos, na Nigéria, onde viu construções que lembravam os locais para onde famílias negras e pobres do Rio eram removidas e que se “refavelizavam”, daí o título. Não Chore Mais, versão de No Woman, No Cry, de Bob Marley, é outra que menciona a cidade: “Bem que eu me lembro / Da gente sentado ali / Na grama do Aterro, sob o sol / Observando hipócritas / Disfarçados, rondando ao redor”, diz a letra.

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Antes de Gil, outro dos grandes da MPB, Milton Nascimento, já havia anunciado que faria sua derradeira turnê, em 2022. De lá para cá, nunca mais fez um show — deu apenas canjas aqui e ali, como no dia em que cantou na quadra da Portela, escola que o homenageou neste Carnaval. “Esses projetos de despedida são a forma também de darem adeus para alguns países e cidades, onde talvez não consigam mais voltar com um grande show”, observa a jornalista e pesquisadora Chris Fuscaldo, autora de Refazenda: o Interior Floresce na Abertura da Fase “Re” de Gilberto Gil (Edições Sesc).

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À época, Milton tinha 80 anos e, assim como Gil, mais de seis décadas de estrada. A longevidade na carreira, aliás, é um traço indissociável dessa geração, da qual também fazem parte Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia e Ney Matogrosso. “É uma turma muito criativa e produtiva não só musicalmente, mas também na linha do pensamento, que não se rende a modismos, mas segue aberta ao novo”, avalia o diretor-executivo da União Brasileira de Compositores (UBC), Marcelo Castello Branco. “Gil é absolutamente genial como artista. A importância dele, porém, vai muito além disso”, acrescenta. Às grandes plateias, ele deixa seu último abraço.

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