Todo mundo pode ser maratonista?
Uma reflexão sobre corrida, superação e por que a maratona pode ser mais acessível do que parece
Não é a primeira vez que escrevo sobre isso. Mas às vésperas de mais uma Maratona do Rio, com a cidade entrando naquele clima delicioso de “todo mundo quer correr no Rio”, voltei à pergunta que me acompanha há anos: todo mundo pode ser maratonista?
Sigo achando que sim. Com uma observação: talvez nem todo mundo queira. E tudo bem. Porque querer correr 42 quilômetros e 195 metros não é uma decisão fácil. Tem que acordar cedo, perder festa, fortalecer músculo que a gente nem sabia que existia, pagar inscrição cara, comprar tênis caro e ouvir, de tempos em tempos, alguém da família perguntar: “Mas você está ganhando alguma coisa para fazer isso?”.
Não, não estou. Pelo menos não em dinheiro. Mas a gente ganha um monte de outras coisas.
Quando escrevi sobre isso pela primeira vez, ainda não era mãe. Disse, na época, que cruzar a linha de chegada de uma maratona talvez fosse parecido com ter um filho, porque naquele momento nascia um novo ser dentro de mim. Claro que não é a mesma coisa. Mas uma versão nova da gente aparece depois de uma maratona. Às vezes mais magra, às vezes mais quebrada, e quase sempre mais convencida de que aguenta muito mais do que imaginava.
A Alice, aliás, já entrou nessa história. Cruzou comigo a linha de chegada da minha primeira maratona sub-4, aqui no Rio, uma cena que vou guardar para sempre. Hoje, quando saio cedo para correr, ela diz que um dia vai comigo. Ela já faz suas provinhas kids com uma seriedade competitiva que me diverte. Minha filha ainda é pequena, mas já entendeu uma coisa que muita gente grande demora a perceber: corrida não é só sobre chegar. É sobre querer chegar.
Eu comecei do jeito menos glamouroso possível. Era boêmia, fumante e jamais tinha corrido na rua até os 36 anos. No melhor jargão: comecei pangaré. Daquelas que olhavam para uma maratonista como quem olha para um animal mitológico, meio mulher, meio máquina, meio doida. Pois bem. Hoje sou unicórnio. Conquistei índice para Boston – a maratona do unicórnio -, algo que nunca, jamais, em nenhuma versão delirante da minha vida, teria imaginado.
Não sou só eu que sigo inventando maratona para chamar de minha. O mundo inteiro parece ter entrado nessa. Londres, minha próxima prova-alvo, recebeu mais de 1,3 milhão de inscrições para 2027, recorde mundial. O Rio também vive sua própria febre: a Maratona do Rio chega a 2026 com cerca de 70 mil inscritos em cinco dias de evento, segundo a organização, e com o selo Elite Label da World Athletics.
Em tempos de tanta pressa, tela e vida sentada, há algo de quase contraditório em ver tanta gente querendo treinar por meses para correr 42 quilômetros e 195 metros. Talvez a maratona tenha virado menos uma prova impossível e mais um sonho possível. Ainda difícil, ainda exigente, mas cada vez menos reservado aos “outros”.
Vou correr os 21k da Maratona do Rio este ano. E quero fazer ainda muitas maratonas. Ainda estou aprendendo. E talvez nunca esteja pronta por completo. Quando melhora o pace, descobre que precisa melhorar a força. Quando melhora a força, percebe que precisa dormir melhor. Quando dorme melhor, entende que alimentação não é detalhe. Quando acha que está dominando tudo, vem uma dor estranha no quadril, uma unha preta, uma crise de confiança.
Ao longo desses 13 anos de pista e 8 maratonas, aprendi, do jeito mais difícil, que o maior segredo de uma boa corrida não está apenas no longão de domingo. Está no fortalecimento.
Fortalecer é, talvez, a mais decisiva e a mais difícil. Não tem paisagem, não tem medalha no fim. Tem agachamento, prancha, exercício unilateral, paciência e humildade. Muita humildade. Porque é ali, diante de um halter aparentemente inofensivo, que a maratonista cheia de planos descobre que ainda tem muito a construir antes de sair por aí querendo voar.
Eu já fui atropelada por uma bicicleta em um treino e ganhei uma placa de titânio e dez parafusos no braço. Já perdi meu pai um mês antes da minha primeira maratona. Já tive fratura por estresse. Já corri triste, feliz, cansada, forte, confusa, confiante e completamente sem saber onde estava me metendo.
A corrida não resolveu todos os meus problemas, porque esporte nenhum tem essa obrigação. Mas ela me organizou por dentro muitas vezes. Me deu rotina quando eu precisava de chão. Me deu foco quando a cabeça queria escapar. Me deu uma turma, uma meta, um corpo do qual me orgulho e uma autoestima que não veio do espelho, mas da sensação concreta de cumprir o que eu tinha prometido para mim.
Por isso, sigo acreditando que todo mundo pode ser maratonista. Não no sentido irresponsável de achar que basta querer, ignorar o corpo e sair correndo 42 quilômetros por aí. Não é isso. Maratona exige respeito. Exige treino, acompanhamento, paciência, fortalecimento, descanso, cuidado e uma boa dose de juízo. Mas, fora as limitações físicas reais, não acho que maratona seja território exclusivo de superatletas, magros profissionais, jovens velozes ou pessoas que nasceram amando acordar às cinco da manhã.
Maratona também é para quem começa tarde. Para quem começa devagar. Para quem já fumou, já bebeu, já duvidou, já mancou, já recomeçou. Para quem um dia se achou pangaré e, anos depois, descobre que talvez tenha virado unicórnio sem perceber.
Talvez seja por isso que eu queira fazer muitas outras. Porque sigo curiosa para saber quem ainda posso me tornar.
E talvez seja por isso também que, quando a Alice diz que um dia vai comigo, eu dico feliz. Não porque eu sonhe com uma filha maratonista. Mas porque gosto de pensar que ela está crescendo vendo que metas grandes não são só para os outros. Que esforço não precisa ser castigo. Que disciplina também pode ser alegria. E que a gente pode começar pangaré, tropeçar muito pelo caminho, fortalecer o que parecia fraco e, quem sabe, descobrir um unicórnio escondido dentro da gente.
Palavra de jornalista. Melhor: de maratonista.





