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Daniela Alvarenga

Por Daniela Alvarenga, médica, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

Dez flexões e tudo aquilo que ninguém vê

No fim de uma grande conquista, normalmente procuramos a imagem perfeita

Por Daniela Alvarenga Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 set 2026, 17h34 | Atualizado em 24 set 2026, 14h53
Jogadores de vôlei com camisas amarelas e calções verdes fazem flexões no chão da quadra, celebrando uma vitória. Um técnico de camisa preta e calça azul observa, sorrindo. A torcida, vestida de amarelo, lota as arquibancadas ao fundo, com faixas escritas NÚCLEO e VIVA
Saldo do Maracanãzinho: dez flexões, um Sul-Americano, uma vaga no Mundial, uma vaga Olímpica e tudo aquilo que ninguém vê (./Reprodução)
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Uma das cenas que mais me chamaram a atenção ao final do jogo Brasil X Argentina, no Campeonato Sul-Americano de Vôlei, foi a dos jogadores e do técnico Bernardinho no chão, pagando dez flexões.

A cena é divertida. Depois de meses de treino, viagens, distância da família, cobrança e muita pressão, comemorar uma conquista desse jeito parece quase brincadeira de colégio. Mas há ali uma metáfora profunda: para fazer uma flexão, primeiro é preciso descer. Chegar perto do chão. Sustentar o próprio peso. E só então encontrar força para subir novamente.

O Brasil venceu os cinco jogos do Sul-Americano sem perder um único set. Na decisão, bateu a Argentina por 3 a 0, conquistou seu 34º título continental e garantiu presença nas olimpíadas de Los Angeles 2028. Visto apenas pelo resultado, parece simples.

Mas não foi.

Essa vitória chega depois de uma sequência de temporadas em que a seleção masculina precisou conviver com derrotas, críticas e questionamentos. O resultado em Paris não foi o esperado, o Mundial de 2025 terminou muito abaixo da tradição brasileira e veio ainda a eliminação precoce na Liga das Nações.

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Após a conquista, Bernardinho publicou uma reflexão que deveria servir não apenas para atletas: “Não somos tão bons quanto dizem quando nós vencemos e não tão ruins quanto querem nos fazer crer quando perdemos.”

Assistimos apenas à parte visível.

Vemos o saque que entrou, o bloqueio na hora certa, os mergulhos para uma grande defesa e, finalmente, a vitória. Mas um time não é construído nos minutos que aparecem na televisão.

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Existe uma quantidade enorme de trabalho invisível: a repetição exaustiva, a academia, a fisioterapia, as análises, as conversas difíceis depois de uma atuação ruim e a reconstrução da confiança.

E existe a preparação psicológica.

Antes de entrar em quadra, há seres humanos tentando funcionar sob pressão, lidando com o medo de falhar, a ansiedade, as noites mal- dormidas, a cobrança e a saudade de casa.

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É preciso aprender a reconhecer a ansiedade sem ser governado por ela, entender que confiança não significa ausência de medo e, acima de tudo, continuar acreditando no processo mesmo quando o resultado imediato teima em não vir.

Saúde mental não é eliminar emoções, mas desenvolver recursos para atravessá-las.

Coragem não é entrar em quadra sem medo. Muitas vezes, é entrar apesar dele.

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O resultado é público, mas quase todo o processo é privado.

E nós, do lado de fora, tendemos a julgar tudo pelo placar. Quando ganham, parecem extraordinários. Quando perdem, buscamos culpados.

Talvez a maturidade esteja justamente em não confundir resultado com identidade.

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Não se iludir demais quando dá certo, nem se destruir quando dá errado. Comprometer-se em vencer sem permitir que a vitória determine o próprio valor — e reconhecer uma derrota sem transformá-la em sentença.

É aí que entra a resiliência.

Resiliência não é suportar tudo em silêncio como se isso fosse demonstração de força. Às vezes, ser resiliente é pedir ajuda, acolher a própria vulnerabilidade, rever uma escolha, admitir um erro e voltar ao fundamento básico.

No esporte coletivo, ninguém se reconstrói sozinho.

Uma equipe é também uma construção emocional.

Para isso, duas palavras se tornam essenciais: coragem e humildade.

Coragem para continuar acreditando no processo quando as coisas não funcionam. Humildade para reconhecer o que precisa mudar.

Coragem sem humildade pode virar arrogância.

Humildade sem coragem pode virar paralisia.

Volto às dez flexões.

Era comemoração. Ritual de grupo. Talvez apenas uma brincadeira depois da vitória.

Mas a imagem fica.

Para subir, primeiro é preciso descer. Sustentar o próprio peso. Encontrar força. Empurrar. E repetir.

Quantas vezes forem necessárias.

Toda equipe vencedora já esteve, em algum momento, no chão.

Todos nós também.

Levantar sozinho exige força.

Levantar junto exige vontade, confiança, coragem, humildade — e todo esse trabalho que ninguém vê.

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