Vitamina D ou proteção solar: precisamos mesmo escolher?
Nem sol sem filtro, nem pânico da radiação: como as descobertas recentes da Ciência sobre a vitamina D convidam a medicina a abandonar os discursos radicais
Durante muito tempo, convivemos com duas recomendações que parecem contraditórias. De um lado: precisamos do sol para produzir vitamina D. Do outro: precisamos proteger a pele da radiação solar para prevenir envelhecimento, manchas e câncer de pele.
Afinal, devemos ou não tomar sol sem filtro?
A resposta é menos confortável do que gostaríamos, porque não cabe em uma frase pronta. A vitamina D é diferente de muitas outras vitaminas porque nosso organismo é capaz de produzi-la na pele a partir da exposição à radiação ultravioleta B, a UVB. Isso é fisiologia. Não há como negar o papel do sol nesse processo.
Mas existe outro fato igualmente importante: a mesma radiação ultravioleta capaz de participar dessa síntese também produz dano celular cumulativo e está diretamente relacionada ao fotoenvelhecimento e ao desenvolvimento dos cânceres de pele. É justamente aí que começa a discussão.
Durante anos, sustentou-se a ideia de que o uso do filtro solar não provocaria qualquer alteração na vitamina D. Recentemente, porém, a Ciência acrescentou uma peça de nuance a esse quebra-cabeça. Um ensaio australiano acompanhou centenas de pessoas durante um ano e comparou o uso diário e rigoroso de protetor solar FPS 50+ com o uso habitual de cada participante. Ao final, o grupo orientado à proteção rigorosa apresentou uma pequena redução nos níveis médios de vitamina D e uma frequência maior de deficiência: 45,7% contra 36,9%. Revisões recentes da literatura apontam no mesmo sentido: uma fotoproteção muito rigorosa pode, sim, impactar discretamente os níveis circulantes de vitamina D.
Isso significa que estávamos errados e que, a partir de agora, devemos sair ao sol sem proteção? Não. Significa apenas que a boa medicina precisa atualizar certezas quando surgem novos dados — sem transformar uma sutil diferença estatística em um salvo-conduto para a exposição irresponsável.
Na prática, as duas afirmações podem ser verdadeiras: uma fotoproteção muito rigorosa pode reduzir parte da produção cutânea de vitamina D; e a exposição à radiação ultravioleta sem proteção aumenta o dano acumulado à pele. A verdadeira armadilha do debate atual é achar que precisamos escolher um dos lados.
O sol não deve ser tratado como inimigo. Estar ao ar livre, caminhar, praticar atividade física e ter contato com a luz natural fazem parte de uma vida saudável. Não precisamos viver escondidos. Mas tampouco precisamos transformar radiação ultravioleta em suplemento vitamínico.
Como dermatologista, tenho dificuldade em recomendar deliberadamente uma exposição capaz de causar dano ao DNA como estratégia para corrigir uma deficiência que pode ser avaliada e, quando necessário, manejada por alimentação ou suplementação. Principalmente porque não existe uma “receita de sol” universal.
A quantidade de vitamina D produzida varia de acordo com horário, estação do ano, latitude, índice ultravioleta, idade, fototipo, área corporal exposta e vestuário. Dizer simplesmente “pegue quinze minutos de sol por dia” parece objetivo, mas está longe de ser preciso. Quinze minutos às oito da manhã não são os mesmos quinze minutos ao meio-dia. Quinze minutos no inverno europeu não equivalem aos mesmos quinze minutos no verão brasileiro. E a resposta de uma pele muito clara jamais será igual à de uma pele intensamente pigmentada.
Existe ainda outro fenômeno curioso. Nas últimas décadas, a vitamina D deixou de ser discutida principalmente no contexto da saúde óssea e passou a ocupar vários outros territórios da medicina: imunidade, câncer, doenças cardiovasculares e longevidade.
Muitas dessas associações são interessantes, mas associação não significa causalidade. Não à toa, diretrizes internacionais, como a da Endocrine Society, passaram a desaconselhar a dosagem rotineira de vitamina D em adultos saudáveis e a suplementação indiscriminada acima das necessidades habituais.
O recado é claro: não devemos usar a promessa da vitamina D nem para justificar o sol sem filtro, nem para medicalizar pessoas saudáveis. Caminhamos, finalmente, para uma discussão mais madura. Nem demonizar o sol. Nem demonizar o filtro solar. Nem transformar qualquer variação de exame em doença. Nem usar a vitamina D como justificativa para queimaduras solares.
Fotoproteção não significa viver no escuro. Significa aproveitar a vida ao ar livre reduzindo o dano cumulativo da radiação ultravioleta. Diante de alguém que precisa conciliar saúde óssea e cuidados com a pele, a pergunta inteligente não é “quanto tempo posso ficar no sol sem protetor?”. A pergunta deveria ser: qual é a maneira mais segura de cuidar de ambos?
O avanço da medicina acontece quando deixamos de escolher entre extremos. O sol continua sendo parte da vida. Só não precisa ser transformado em prescrição.






