O quentinho do coração prateado
Existe uma falsa ideia de que, depois dos 60, o desejo de encontrar um parceiro entra em aposentadoria.
A gente fala muito sobre longevidade. Sobre viver mais. Sobre cuidar da saúde, fazer musculação, comer proteína, tomar colágeno, controlar a glicemia, meditar, viajar, aprender italiano depois dos 60.
Tudo isso é ótimo.
Mas quase ninguém fala do tamanho da solidão que chega quando o coração resolve querer companhia outra vez.
Porque ele quer.
E isso não tem idade.
Existe uma falsa ideia de que, depois dos 60, o desejo de encontrar um parceiro entra em aposentadoria. Não entra. Apenas exige mais criatividade e algum esforço.
Primeiro porque as pessoas saem muito menos. Estão cansadas. Muitas enfrentam quadros de ansiedade ou depressão silenciosa. Outras ganharam peso, perderam autoestima, estão preocupadas com a saúde ou simplesmente sem dinheiro para bancar canetinhas, bares e programas caros.
Depois vêm as desculpas meteorológicas.
Se faz calor, ninguém aguenta.
Se venta um pouquinho, “ai, minha sinusite”.
Se chove, “melhor ficar vendo série”.
Se o trânsito está ruim, desanima.
No fim das contas, o sofá vence quase sempre.
E o algoritmo do streaming acaba sendo o parceiro mais constante da noite.
A vida moderna também não ajuda.
Os aplicativos de relacionamento, criados para facilitar encontros, muitas vezes geram ainda mais frustração. Muita gente não sabe mexer nem com o Gov.Br., imagina para um date? Depois tem muita desconfiança afinal viemos da época do olho no olho e essa coisa de cardápio de gente não cola muito.
Enquanto isso, quem já passou dos 60 continua procurando algo muito mais simples: alguém para dividir um café, um cinema, uma caminhada na praia, uma viagem curta ou até o silêncio de uma tarde.
Companhia virou artigo de luxo.
Mas há uma boa notícia.
Os encontros continuam acontecendo. Só mudaram de endereço.
Eles estão nas feiras livres de sábado de manhã na Glória, Laranjeiras, Ipanema ou Praça XV, onde se escolhe um doce, um livro, uma antiguidade e se troca conversa.
Na fila do supermercado.
Na missa de domingo.
Na aula de pilates
Na livraria. No grupo de estudo.
No curso de cerâmica
Na oficina de fotografia.
Na cafeteria do bairro.
Nos parques, praias, caminhando.
Nos museus em dias úteis.
E, principalmente, nas festas pensadas para quem já passou dos 50.
Não é por acaso que eventos como a Festa Kikando, criada ao lado do DJ Marcos Mamede, vivem lotados. Não é apenas a música dos anos 70, 80 ou 90 que faz sucesso.
É a possibilidade de olhar alguém nos olhos. De dançar mais juntinho.
Conversar sem pressa.
Se jogar na pista sem julgamento dos filhos que acham a gente um mico.
Descobrir que ainda existe química sem precisar preencher um cadastro ou escrever uma biografia para um aplicativo.
Ali, ninguém pergunta a idade.
Todo mundo já sabe.
O que importa é a energia.
A verdade é que a longevidade criou um fenômeno novo.
Antes, muitos casamentos duravam até que a morte separasse o casal.
Hoje, muitas vezes é a vida que separa.
O chamado divórcio grisalho cresce no Brasil e no mundo. Mulheres que passaram décadas aceitando relações infelizes descobriram que não precisam mais permanecer nelas por obrigação. Ganharam independência financeira, autoestima e coragem para recomeçar.
Homens também se reinventam.
Viúvos reaprendem a viver.
Separados voltam a namorar sério sem escolher a piriguete.
Casais se formam depois dos 65, dos 70 e até dos 80 anos.
A régua da vida aumentou.
E ninguém quer passar mais quinze anos pagando boletos, tomando remédios e assistindo televisão.
Queremos beijo na boca.
Queremos rir de novo.
Queremos ter para quem mandar uma foto do pôr do sol. Nudes, não curtimos.
Porque viver mais sem vínculo pode significar apenas prolongar a solidão.
É curioso como investimos tanto tempo procurando um bom cardiologista para cuidar do coração físico e tão pouco tempo cuidando do coração emocional.
Talvez esteja na hora de colocar um compromisso novo na agenda.
Não para encontrar o amor da vida.
Mas para voltar a encontrar a vida no amor.
Saia mais durante o dia.
Aceite convites.
Experimente lugares diferentes.
Converse com desconhecidos.
Olhe ao redor.
A pessoa que pode mudar os próximos dez anos da sua história talvez esteja mais perto do que você imagina.
Tipo esperando a missa começar.
Ou dançando na próxima Festa Kikando.
A longevidade não nos trouxe apenas mais anos.
Ela nos deu novas oportunidades de amar.
E isso merece ser celebrado.
Agora eu lhe devolvo a pergunta.
Como anda o quentinho do seu coração prateado? Me conta!





